O machismo de Temer no Dia da Mulher não é o pior de seu currículo. Por Nathalí Macedo

"Você voltando do Extra, mozão, me deu onda"
“Você voltando do Extra, mozão, me deu onda”

 

A minha timeline está em polvorosa com as declarações de Michel Temer ontem em um evento ligado ao Dia Internacional da Mulher em Brasília.

“Tenho absoluta convicção, até por formação familiar e por estar ao lado da Marcela, do quanto a mulher faz pela casa, pelo lar. Do que faz pelos filhos. E, se a sociedade de alguma maneira vai bem e os filhos crescem, é porque tiveram uma adequada formação em suas casas e, seguramente, isso quem faz não é o homem, é a mulher.”

O espanto em torno de declarações tão tipicamente temerárias não faz sentido.

Estamos falando do presidente que discursou durante pouquíssimos segundos nas Olimpíadas por medo de vaias. Que evita sair às ruas por medo de vaias. Estamos falando do homem sem carisma (e sem escrúpulos) que chama a imprensa quando vai buscar o filho na escola na tentativa de ser um pouco mais amado. Estamos falando de alguém cuja formação familiar – inescrupulosa, decerto – de fato conduz a posicionamentos retrógrados, machistas e inapropriados.

É difícil tratar Michel Temer como alguém capaz qualquer declaração, mesmo pueril, de coerência ou coragem: uma vez decorativo, sempre decorativo.

Aliás, um país em que uma quadrilha toma o poder através de um golpe jurídico-parlamentar (seus inegáveis aspectos machistas não podem ser ignorados, ressalte-se), é publicizado na mídia nacional e internacional um áudio que denuncia todo o esquema e absolutamente nada acontece, é um país em que políticos de costas quentes podem fazer absolutamente qualquer coisa – um discurso machista, então, é bobagem.

O discurso retrógrado no Dia da Mulher, convenhamos, não é o pior do currículo macabro de Michel Temer. Antes de nos preocuparmos com o discurso – que, aliás, caracteriza perfeitamente o seu emissor -, nos preocupemos, por exemplo, com a reforma da Previdência Social, prejudicial a todos os trabalhadores, mas especialmente às mulheres.

O que esperar de um homem que se casa com uma mulher mais jovem e a transforma em sua bela, recatada e do lar? Que a enclausura na função retrógrada de “primeira-dama doce e professoral”? Querer que defenda o empoderamento feminino?

É muita ingenuidade, para dizer o mínimo.

As declarações de Michel Temer só confirmam o meu asco por sua figura, e me fazem pensar o quanto deve ser difícil a vida de alguém que acredita que todas as mulheres são belas, recatadas e do lar como Marcela – fora do machista país das maravilhas  de Michel Temer, mulheres estão escolhendo não ter filhos e eventualmente chegando à presidência.

Fora do pensamento arcaico – que soa como piada – de Temer, mulheres não são apenas “capazes de indicar os desajustes de preços em supermercados”, mas de fazer qualquer coisa que queiram, e é exatamente isso que temem, com o perdão do trocadilho, homens covardes como o nosso digníssimo Presidente.

A ele, hoje, não cabe sequer a nossa revolta. Cabe apenas o que ele tem tido pelo país afora – na esquerda, na direita, no centro e em todos os cantos: desprezo.

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