O macho jovem argentino se abriga na extrema direita para pedir socorro. Por Moisés Mendes

Atualizado em 10 de março de 2026 às 20:19
O presidente argentino Javier Milei
O presidente argentino Javier Milei – Reprodução

Compartilho texto que está no site do jornal El Destape, de Buenos Aires, sobre o fenômeno do engajamento dos jovens argentinos às ideias de Javier Milei e da extrema direita.

É uma leitura que nos interessa, porque o Brasil ainda está escapando da adesão em massa dos jovens a projetos e ações ‘disruptivas’ identificadas com o fascismo, o machismo e a violência contra as mulheres.

Abaixo, na íntegra, o texto que mostra como a crise do macho jovem argentino os encaminha, segundo o estudo, para uma “politização de direita”.

Frustração, antifeminismo e redes sociais: por que os jovens votam em Milei

Um estudo realizado com homens entre 16 e 25 anos revela que a insegurança econômica e a crise dos papéis de gênero tradicionais estão impulsionando uma identidade política reativa, baseada na vitimização e no desejo de retornar ao passado.

O fenômeno do apoio da juventude ao partido Liberdade Avança transcende a esfera eleitoral, tornando-se uma profunda luta cultural e emocional. De acordo com a pesquisa “Os significados das masculinidades entre jovens homens eleitores de Milei”, conduzida por Esther Solano, Pablo Romá, Cecilia Feijoo e Guido Bonano, esse apoio está enraizado na convergência de duas frustrações: as disparidades socioeconômicas e a incerteza em relação à ascensão da mulher e do feminismo.

O estudo, baseado em grupos focais realizados em sete centros urbanos da Argentina, indica que esse segmento de jovens está vivenciando um “colapso do ideal masculino tradicional”, o que gera sentimentos de ansiedade e ressentimento.

Nostalgia pelo “provedor masculino”: De acordo com os autores, o desconforto desses jovens está diretamente ligado à sua incapacidade de alcançar marcos de estabilidade material, como possuir uma casa ou um carro, o que acentua sua vulnerabilidade diante das expectativas sociais de que sejam provedores.

Diante desse cenário, surge o que o relatório chama de “utopia reacionária impossível”: uma idealização da família tradicional de seus pais e avós que funciona como um “refúgio contra a incerteza do presente”.

Nesse modelo, o homem retoma seu papel como principal provedor e a mulher retorna ao lar e aos cuidados com a família, uma ordem pela qual esses jovens anseiam diante da atual insegurança no mercado de trabalho.

Essa situação precária os leva a enxergar as mulheres como concorrentes diretas. Os depoimentos coletados por Solano e sua equipe refletem que muitos jovens acreditam que as mulheres têm uma “vantagem” no mercado de trabalho não por mérito, mas por serem “atraentes” ou “mais simpáticas”.

Essa percepção de injustiça alimenta uma narrativa de vitimização em que os homens se sentem deslocados por um sistema que, em sua visão, agora os discrimina.

A “vida dupla” e a blindagem da machosfera: Uma das descobertas mais impactantes da pesquisa é a fragmentação da identidade desses homens. Diante do medo da rejeição ou da humilhação pública, muitos adotam uma “vida dupla”.

Jovem com rosto coberto com pano de Javier Milei
Jovem apoiador de Milei – Reprodução

Segundo os autores, os jovens mantêm um “eu adaptado” em espaços públicos ou progressistas, enquanto protegem seu “eu autêntico” — caracterizado por opiniões conservadoras e nostálgicas — para as esferas privada ou digital.

Quando a pressão social se torna excessiva, eles recorrem ao solilóquio: o hábito de se isolar para pensar sozinhos devido à “impossibilidade de compartilhar vulnerabilidades” em grupos de amigos onde a fraqueza é punida.

A fuga definitiva reside na “machosfera”, um ecossistema digital de influenciadores como Dannan, El Temach e Agustín Laje. Nesses espaços, os jovens encontram validação e o que percebem como “coragem” diante do consenso social.

Ali, o conteúdo que consomem — desde conselhos de autoestima como “não implore às mulheres” até críticas ferozes ao aborto — os conduz gradualmente a uma “politização de direita” em questões econômicas e geopolíticas.

O feminismo como “desordem” e Milei como um leão protetor: A rejeição do feminismo é um princípio central dessa identidade. De acordo com o estudo, os entrevistados acreditam que o movimento feminista “desestabilizou” a sociedade, causando o que definem como “a mesma coisa, só que ao contrário”: uma suposta inversão de papéis opressivos, onde os homens agora são os submissos.

Embora aceitem parcialmente os aspectos biológicos da Educação Sexual Abrangente (ESA), rejeitam categoricamente o que chamam de “doutrinação baseada na identidade”.

Neste ambiente de tensões, Javier Milei surge como o restaurador da ordem. Para seus seguidores, o presidente — apelidado de “leão” — personifica uma masculinidade “dominante e forte” que projeta autoridade.

Os autores concluem que Milei oferece não apenas a perspectiva de estabilidade econômica, mas também a liberdade de “expressar abertamente suas opiniões” sem medo de censura estatal.

No entanto, o relatório termina com um alerta: esses jovens de origem operária podem se ver “presos em uma situação impossível”, onde suas aspirações por um passado idealizado se chocam frontalmente com um modelo econômico que dificilmente consegue atender às suas necessidades materiais”.

Moisés Mendes
Moisés Mendes é jornalista em Porto Alegre, autor de “Todos querem ser Mujica” (Editora Diadorim) - https://www.blogdomoisesmendes.com.br/