O maior brasileiro de todos os tempos

Lula e FHC

 

Fizemos em 2007, na revista Época, um esforço intenso para identificar o maior brasileiro de todos os tempos. Propus, numa reunião do Conselho Editorial das Organizações Globo, que outras mídias se juntassem no levantamento: tv, rádio e jornal. Mas parcerias, ali, não prosperam muito. E talvez tenha sido melhor a revista ficar isolada, uma vez que a TV Globo poderia lutar pelo companheiro Roberto Marinho.

O trabalho durou alguns meses.

Ouvimos autoridades reconhecidas em diversas áreas. Conclamamos os leitores a se manifestar pela internet. A voz roucas das ruas não ajudou muito, para ser franco: Chico Xavier ganhou disparado na internet. Com todo o respeito que o bom Chico merece, foi uma pataquada dos leitores.  O eleito acabou sendo Ruy Barbosa. Não sei, sinceramente não sei, se também nós, especialistas e editores, cometemos uma pataquada.

O debate está aberto.

Um trecho da capa: “Num país tomado pela monocultura cafeeira e lavouras arcaicas, Ruy simbolizou a ascensão dos profissionais liberais urbanos. À prepotência dos coronéis, opôs o idealismo dos bacharéis. Com sua inteligência invulgar, mostrou à classe média urbana que o conhecimento também era uma forma de ascensão social. Defensor intransigente das instituições liberais, Ruy guiou os primeiros passos do Brasil rumo à modernidade. A primeira  Constituição republicana do Brasil, promulgada em 1891, foi praticamente um livro de sua autoria.”

Outro: “Em mais de meio século de vida pública, Ruy liderou campanhas pelo abolicionismo, federalismo, pela separação entre Igreja e Estado, anistias e, principalmente, pela criação de instituições sólidas para a nascente democracia representativa brasileira. Monarquista liberal à moda inglesa, Ruy Barbosa só aderiu à República no último instante. Após a Proclamação de 1889, foi ministro da Fazenda do Gabinete Provisório. Candidatou-se quatro vezes à Presidência da República. Jamais venceu.”

Lembrei-me disso ao ver que o SBT está fazendo um programa com o mesmo objetivo. Doze finalistas, li. Ruy Barbosa não está na lista. Lula, sim. FHC também. Getúlio e Juscelino, também. Bons nomes.

Em quem eu votaria hoje?

Bem, eu resumiria a escolha a dois nomes: Lula e FHC. FHC pôs fim à hiperinflação, e isso por si só foi uma bênção para os pobres, os 99%. A classe média e os ricos tinham como se defender da inflação. Havia até contas bancárias remuneradas, em que o seu dinheiro era corrigido diariamente.

Mas os pobres não tinham defesa nenhuma. O término da hiperinflação acabou promovendo, colateralmente, uma redistribuição de renda — sem contar todos os demais benefícios. O país, sob FHC, deixou de ser uma piada econômica. Em sua gestão, uma reforma dos bancos — fortemente combatida pela oposição petista, aliás — foi vital para que o Brasil de Lula passasse pela crise financeira iniciada em 2007 sem grandes sustos.

FHC seria, até alguns anos atrás, meu candidato ao posto de maior brasileiro de todos os tempos.

Mas Lula acabou indo além. Foi o primeiro presidente brasileiro — com a possível exceção de Getúlio Vargas com suas leis trabalhistas tão combatidas pela plutocracia mas tão boas para os empregados — que colocou claramente os 99% no topo das prioridades. Isso sem descuidar do 1% — aquele grupo que ganhou muito dinheiro sob Lula mas, ao mesmo tempo, tentou miná-lo repetidas vezes com acusações obtusas como “assistencialista” etc etc.

Lula fez um governo pelo povo e para o povo. Brasileiros pobres, simples, excluídos sentiram que o presidente era, enfim, também deles.

Por isso meu voto seria dele.