O maior cronista da história do jornalismo de São Paulo

Ninguém captou com tanto lirismo a grandeza caótica da cidade como Lourenço Diaféria.

São Paulo
São Paulo

SÃO PAULO está sempre em mim, aqui em Londres, mas estes dias esteve ainda mais que o habitual, em seu aniversário. São Paulo, ao contrário de Londres ou Paris, majestosamente preservadas, está em perpétuo e às vezes caótico movimento, dona de uma beleza estranha e não convencional que vai conquistando o recém-chegado aos poucos. Há dois tipos de paisagens de cidade, escreveu o arquiteto e intelectual alemão Siegfried Krakauer (1899-1966). Uma se forma intencionalmente, com planejamento e cálculo. A outra jorra espontânea, deriva da aparição e do aproveitamento de oportunidades, e “não é mais planejada que a própria natureza”.

Krakauer falava de Berlim, cuja deslumbrante desordem arquitetônica reflete “suas contradições, sua dureza, sua abertura, suas justaposições, seu glamour”. Mas poderia estar falando de São Paulo. Assim como durante tanto tempo fez Lourenço Diaféria (1933-2008), o maior cronista paulistano de todos os tempos. O Rio foi rico em cronistas brilhantes. Num certo momento teve Rubem Braga, Fernando Sabino e Paulo Mendes Campos ao mesmo tempo. São Paulo teve um único grande cronista, Lourenço. Toda grande cidade tem seu bardo, o cronista que capta sua alma complexa e a reflete ao mesmo tempo em que é refletido por ela. São Paulo teve Lourenço.

Conheci-o bem pessoalmente. Era amigo próximo de meu pai, e lembro de Lourenço nos visitando com sua mulher Geiza na casa da Previdência. Cabelos encaracolados, rosto redondo, sem nenhuma afetação intelectual, Lourenço era o paulistano típico. Ocupara várias posições na Folha de S.Paulo, e depois conquistara um lugar de honra como cronista na Ilustrada. Era um estilista sem parecer que fosse, como uma mulher aristocrática diante de quem você se sente à vontade o suficiente para dar, ao encontrá-la, um beijo plebeu no rosto. Você o lia e não era obrigado a ter o dicionário ao lado, mas a pensar sim. Seu texto e suas histórias, como a Berlim de Krakauer, refletiam as contradições que tornam São Paulo o que é em sua diversidade sem limites.

ALGUÉM ESCREVEU que um caso de amor deveria terminar na última vez em que o beijo funcionou. Lourenço, como cronista da Folha, encerrou sua jornada com a maior história que escreveu. Vistas as coisas retrospectivamente, mais de trinta anos depois, houve uma beleza poética nisso, não planejada, bem ao estilo da cidade em que nasceu, cresceu e morreu Lourenço. Lourenço enalteceu um sargento que morreu num zoológico de Brasília ao se atirar no poço das ariranhas, onde caíra uma criança. Ele salvou a criança, mas não a si mesmo. Em “Herói.Morto.Nós“, Lourenço fez uma conexão entre aquele militar simples e as estátuas de militares engalanados, como a de Duque de Caxias. Falar dessa estátua específica era compreensível. Ela está perto da Folha e é um dos destaques da paisagem nos arredores da Barão de Limeira, onde fica o prédio de pastilhas amarelas do jornal, no centro da cidade. Passávamos sempre por lá quando papai me levava, pequeno, para o jornal e depois para um giro pelo centro. Jamais em minha vida comi, em qualquer cidade do mundo, um prato que superasse o risoto de frango dos restaurantes do centro em que, as pernas penduradas sem tocar o chão, almoçava no balcão com meu pai nas vezes em que ia vê-lo, menino, trabalhar.

O maior cronista da cidade
O maior cronista da cidade

Era 1977 quando Lourenço escreveu a homenagem ao sargento, e o país vivia sob o regime militar. Criticar presidentes, falar irreverentemente de militares históricos como Caxias agora é fácil até para um estagiário, mas naqueles dias não era bem assim. As consequências foram imediatas: prisão e processo porque o Exército tinha sido “ofendido” na menção à serventia da estátua de seu patrono, Duque de Caxias. Lourenço escreveu que o povo “urina na estátua” de Caxias. Na verdade ele, no original, usara o verbo “mijar”. Papai, que Lourenço gostava de ouvir como uma espécie de mentor, leu o texto antes que ele fosse publicado, e sugeriu-lhe que trocasse o verbo. Mais que isso era evicescerar uma crônica soberba, uma mistura rascante de tributo e desabafo. Lourenço fez a alteração. Não foi suficiente para evitar a fúria militar. Lourenço acabou preso como “subversivo”, logo ele, um católico praticante sem nenhuma militância política e nenhuma causa que não fosse a da bondade. No dia seguinte, a coluna  saiu em branco, num protesto silencioso contra a prisão. Imediatamente o jornal recebeu o aviso de que, se isso acontecesse de novo, a Folha não iria mais para a banca. Hoje é impossível imaginar uma situação dessas, mas naqueles tempos um general poderoso podia provocar taquicardia num dono de jornal com uma ameaça dita telefonicamente em tom marcial. O resultado é que o protesto silencioso sumiu imediatamente e a coluna de Lourenço jamais voltou a sair. Para os leitores, foi uma subtração doída e permanente, e o fato de que jamais temha aparecido outro cronista remotamente capaz de ombrear com Lourenço fala por si.

Houve outros desdobramentos, posteriormente publicados e debatidos pela comunidade jornalística de São Paulo, e que acompanhei de perto por causa de meu pai. O diretor de redação do jornal, Claudio Abramo,um carismático e explosivo dândi intelectual que flertara com o trotskismo, como era comum naqueles dias, foi afastado. Em seu lugar entrou um jornalista titular de um perfil mais adequado aos tempos, Boris Casoy. Boris, gente fina, com o vozeirão de quem é oriundo do rádio (Eldorado) e uma habilidade folclórica para dar trotes nos colegas em telefonemas nos quais se fazia se passar por gente como Jânio Quadros, era tido como um raro homem não de esquerda nas redações de São Paulo. Para quem conhecia sua biografia, a voz de locutor aliada a uma familiaridade com a política adquirida no dia a dia de uma redação politizada até nos boys, não foi surpresa o sucesso que Boris faria, depois, na televisão. Não era um redator clássico, ao contrário dos antecessores  no comando de redação do jornal, todos eles, tradicionalmente, exímios na arte de redigir notícias, editoriais e o que mais fosse.

O clima político foi depois se amainando. A democracia foi se avizinhando. O jornal retomou seu caminho e Claudio Abramo, depois de um período encostado na Europa, ocupou o espaço honroso de São Paulo na página 3 até a morte, aos 63 anos, por um infarto. Mas para Lourenço o golpe foi irreparável. Papai testemunhou para seu amigo no processo, e neste período ele ia com frequência a nossa casa. Eram visitas divertidas, nas quais Lourenço tinha diante de papai a postura de um irmão mais novo. Apenas em 1979, dois anos depois, ele foi absolvido. Nunca mais teve o palco dos grandes tempos, e o trauma cobrou um preço em seu processo de criação. Um escritor como Lourenço vive da espontaneidade e a partir de “Herói.Morto.Nós” imagino que ele tenha refletido apreensivamente sobre as palavras que um dia costurou sem autocensura  num regime de liberdade mental absoluta. Ademais, alguns jornalistas viram em Lourenço um “inocente útil” e o marginalizaram. Como um astro de música decadente, Lourenço até o final da vida encontrou palcos, mas todos eles eram bem menores do que seu ocupante enorme, o maior cronista que a cidade conheceu, o único entre tantos, antes e depois dele, que conseguiu captar a grandeza épica e contraditória de São Paulo e transformá-la numa pequena dádiva diária aos leitores .

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