O maior momento de Dilma na primeira metade de seu mandato

O olhar reprovador dirigido a Joaquim Barbosa foi uma inovação no campo da sinceridade política.

Quando a sinceridade encontrou o farisaísmo

E Dilma passa da metade do mandato, sob aprovação da maior parte da população, como mostram as pesquisas.

Segundo o Datafolha, ela venceria hoje as eleições no primeiro turno. Lula também. O maior adversário de Dilma, hoje, é a economia, e não qualquer líder político da oposição. Se o mais forte destes é Aécio, você pode bem imaginar o resto.

Dilma ganhou luz própria, e isso foi um de seus maiores feitos. Na Rússia, Medvedev ficou sempre na sombra de Putin mesmo enquanto foi presidente. Dilma não. A despeito da lealdade irretocável a Lula, ela segue o seu caminho.

Virou uma mãezona dos brasileiros humildes, tão carentes de atenção.

Do ponto de vista interno, seu maior acerto é a clareza de que o Brasil não tem muito do que se orgulhar, mesmo à beira de ser a quinta economia do mundo, enquanto houver tantos milhões de miseráveis.

Governar sob esta divisa é, inegavelmente, bom para o país.

Do ponto de vista de política exterior, Dilma não se alinhou ao bolivarianismo de Chávez na Venezuela, e nisso destoou de colegas como a argentina Cristina Kirchner, o equatoriano Rafael Correa e o boliviano Evo Morales. A esquerda talvez quisesse mais, neste ponto.

Mas fez questão de incluir em sua fala, numa visita aos Estados Unidos, um pedido para que chegue ao fim o embargo econômico que os americanos impõem a Cuba. A política externa do Brasil de Dilma é um retrato dela mesma: serena, equilibrada, moderada sem perda de altivez.

Outro bom instante de Dilma foi não se impressionar – ao contrário da mídia – com o sermão dado pela Economist com ares imperiais. Ora, a Economist não conseguiu resolver sequer os problemas de seu país, a Inglaterra, e nem os seus próprios, aliás: vai sendo castigada intensamente pela internet sem achar respostas satisfatórias para a surra.

Mesmo assim, em seu tom doutoral, a Economist – que não está na primeira divisão na mídia inglesa, tradicionalmente voltada para jornais e não para revistas – dá receitas de salvação para o mundo todo. Ninguém ouve, exceto no Brasil.

Mas o maior momento de Dilma, nestes dois anos, foi captado por um fotógrafo do Globo: o olhar furioso que ela endereçou a um estranhamente sorridente Joaquim Barbosa no velório de Niemeyer.

Foi quando a transparência se encontrou com a hipocrisia. Foi quando a amiga solidária revelou a raiva que tinha do homem que para ela foi abjeto — e injusto — com a pessoa a quem devia a presença no STF.

Dilma trouxe, ali, uma cena rara na alta política nacional: a sinceridade. Alguns críticos disseram que ela desrespeitou o Supremo, mas é um erro.

Se, diante do caixão de Niemeyer, Dilma mostrou falta de respeito, o alvo não foi o Supremo, mas a pessoa física de Joaquim Barbosa. E mais forte que a repulsa explícita por Barbosa era o apoio implícito a Lula.

Não se sabe como a história julgará JB, se como um heroi anticorrupção ou um Vichinski que destroçou a presunção de inocência, e é para esta segunda hipótese que me inclino, mas o que vimos é que Dilma já parece ter feito seu julgamento pessoal.

Não estamos acostumados à sinceridade na política, e provavelmente por isso o gesto de Dilma causou tanta celeuma.

Compare a atitude de Dilma com a de Lula na morte de Roberto Marinho, em 2003. Lula não apenas decretou luto oficial de três dias como sublinhou, em Roberto Marinho, “quase um século de vida de serviços prestados à comunicação, à educação e ao futuro do Brasil”.

Sêneca escreveu que ao pensar em certas coisas que dissera invejava os mudos. Presumo que Lula, ao lembrar de suas palavras sobre Roberto Marinho, sinta algo parecido. A retribuição a elas está expressa, todos os dias, nos múltiplos colunistas das Organizações Globo dedicados inteiramente à perseguição de Lula.

Neste ponto, o dos salamaleques políticos que o tempo pode tornar extraordinariamente embaraçosos, Dilma representou um avanço sobre Lula.

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