O marido escravista de Ivete e o retrato do isentão bolsonarista em tempos pandêmicos. Por Nathalí

Marido de Ivete Sangalo em entrevista a Regina Casé. Foto: Reprodução

Por Nathalí Macedo

A essa altura da pandemia em que já quase parece que o mundo acabou e a humanidade segue fazendo hora extra, ninguém aguenta mais o discurso pequeno burguês de “vamos aproveitar a pandemia para alcançar novos aprendizados.”

A COVID – pior: ser brasileiro em tempos de COVID –  é uma catástrofe completa e não há um lado bom ou uma vantagem possível. O verbo “aproveitar” não cabe nesse apocalipse, não importa o tamanho do esforço argumentativo.

O que meia dúzia de distraídos chamam de “aprendizados proporcionados pela pandemia” nada mais é, na verdade, do que a podridão social e política da parcela mais asquerosa do nosso país emergindo dos agora mais de quatro mil cadáveres/dia que o negacionismo bolsonarista mata enquanto o empresariado, literalmente, aplaude.

Não é apenas a sordidez do governo Bolsonaro que se revela a partir da tragédia: é também e principalmente o abissal apartheid social do Brasil destes dias.

A relação entre empregados domésticos e patrões – marcada desde sempre pela herança escravocrata no maior estilo “Que Horas Ela Volta” – ganha, com a pandemia, contornos ainda mais preocupantes.

Daniel Cady, marido de Ivete Sangalo – que sempre posou de isentona mas apoiou, é bom lembrar, o desgoverno responsável pelas centenas de milhares de mortes em um país sem vacina para todos – não é o único a despejar sobre a criadagem a responsabilidade pela contaminação: desde que a pandemia começou, sindicatos de empregados domésticos têm recebido pedidos de ajuda de enpregadas domésticas obrigadas a permanecerem na casa de seus patrões “enquanto a pandemia durar.”

Cady, que testou positivo para COVID 19, disse em uma live com a atriz Regina Casé que todos os membros da família foram contaminados pela empregada. “A COVID chegou aqui em casa pela nossa cozinheira.”

Claro, o vírus não pode ter chegado através da equipe numerosa contratada por Ivete pra produzir uma live milionária com pinta de amadora: só pode ter sido culpa da empregada, obrigada a se revezar, semana a semana, entre a própria casa e a casa dos patrões.

Outras domésticas, inclusive, sequer tiveram a mesma sorte: na Bahia, o sindicato de empregados domésticos já recebeu 28 pedidos de socorro de mulheres obrigadas a passarem a quarentena na casa dos patrões, por serem vistas como ameaças de contaminação – algumas delas não puderam voltar pra casa desde o início da pandemia, há pouco mais de um ano.

Melhor manter a empregada sem o direito de voltar para a própria casa, ou obrigá-la a circular expondo ao risco a si mesma e aos outros do que ter que limpar a própria privada ou cozinhar a própria comida só porque o mundo está colapsando.

Para os pequenos burgueses – e para os grandes também – vale tudo pra não ter que dar conta da própria sujeira.

Em uma catástrofe como esta, patrões minimamente decentes pagariam os direitos de seus empregados e os manteriam seguros – mas não se pode esperar o mínimo de decência de uma elite podre.

Em vez disso, é mais fácil acusá-las, publicamente e sem o menor constrangimento, de serem responsáveis pela contaminação da família: que abandonem as próprias casas e arrisquem a própria vida e ainda por cima levem a culpa, ou que morram de fome (soa pesado dizê-lo assim, diretamente, mas neste momento não há outro modo de dizer isso).

Além de revelar a face mais grotesca de seu elitismo, o marido de Ivete não poderia terminar a live sem deixar também aos expectadores uma pequena prova de sua ignorância: “nós todos já pegamos COVID, então estamos meio que vacinados”, disse, quando Regina Casé sugeriu que a família cumprisse isolamento antes de visitar seu sítio, para onde Cady acabara de se autoconvidar.

O nutricionista – profissional de saúde, confere? – aparentemente desconhece as novas variantes do vírus, e o fato de que já ter contraído a doença não vacina ou “meio que vacina” ninguém.

Nada novo sob o sol, em se tratando de bolsonaristas: eles brindam à burrice como esporte.

Gente como Cady e Ivete – e todos os patrões cujos empregados têm pedido socorro ao sindicato – são a prova de que a pandemia pode até ter algo a ensinar, mas quem realmente deveria não está preocupado em aprender.

Os ricos continuarão engajados apenas em manterem a própria riqueza e o próprio conforto – mesmo se isso custar a vida dos pobres, como sempre foi (e a maior prova disso é o fura-fila das vacinas).

A essa altura do campeonato, nada fará com que a elite enfrente os próprios privilégios. Nem as mortes, nem o colapso, nem o fim do mundo. Nada.

A culpa continuará sendo da empregada (ou do PT).

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