O Massimo, símbolo de uma São Paulo que não existe mais, deixará saudade?

Massimo Ferrari nos bons tempos
Massimo Ferrari nos bons tempos

 

O paulistano e sua eterna mania de se queixar do fechamento dos lugares que não frequenta. Belo exemplo desse tipo de situação é o Cine Belas Artes; cineminha meia boca, com salas desconfortáveis e programação que ficava no limbo entre o alternativo e o comercial, assim afastando os dois públicos. Na época de seu inevitável fim, vieram à cena inúmeros fervorosos fãs, demonstrando imensa fúria. Minha vontade era de perguntar a cada revoltado quantas vezes ele tinha visto um filme por lá no último ano. Afinal, nos últimos tempos, o cinema tinha tanto público quanto aquele Portuguesa X Ponte Preta, às 15h de uma quente terça-feira de 2003, que ninguém guarda muito na lembrança.

Velho não é sinônimo de clássico. Aliás, envelhecer com dignidade é arte dominada por poucos.

Agora, partindo para a gastronomia, vejamos o que aconteceu com três restaurantes italianos antigos de São Paulo. Em comum, todos tinham certo ar de ostentação, ambiente imponente, muito frequentado por velhos políticos que hoje mal saem para jantar por diversos motivos, tais como velhice, morte ou, no caso de alguns como Paulo Maluf, por vergonha mesmo.

O maior deles, Fasano, ficava num casarão mal assombrado que depois virou buffet da própria família e hoje não é nada. E a cozinha era comandada por um chef decadente. Se não se mexesse, provavelmente seria dificílimo mantê-lo aberto. O que o herdeiro e administrador Rogério Fasano fez? Primeiro contratou um grande chef. Cuidar melhor da comida deveria ser prioridade de todos. Depois soube se associar a investidores capitalistas e juntos montaram um pequeno império em que a escola de serviço é a melhor do país, sem concorrentes. O endereço da matriz, em São Paulo, fica num hotel do grupo, tem excelência em seus produtos e um público fiel.

Não é o tipo de lugar que gosto de frequentar, nem tenho dinheiro pra isso, o que não tem nada a ver com o profissionalismo dos caras, que deve ser admirado. Inclusive o chef que participou da transformação do restaurante saiu após mais de uma década de inquestionável serviço prestado pra dar lugar a um jovem talentoso que vem melhorando ainda mais o menu. A decadência que bateu na porta do restaurante há tempos, hoje nem passa por perto.

Outro lugar que soube envelhecer é o Santo Colomba. Pra mim, o restaurante mais bonito da cidade, de longe. Móveis lindos, trazidos do histórico bar do Jockey Club do Rio de Janeiro, fazem parte do cenário, fiel retrato de uma época que não existe mais. Mas, se o salão não mudou, e a época não existe mais, o que fazer? Como conquistar um novo público?

A solução foi trazer, na década de 90, o chef Alencar, mineiro gente boníssima, que trabalha ao lado de sua senhora na cozinha, e é auxiliado por seu filho no salão. O Santo Colomba se humanizou. De nada adiantaria a manobra se o chef não fosse um dos cozinheiros mais habilidosos da cidade. Vai de mesa em mesa oferecer os especiais do dia, com elegância impecável e simpatia real, sem sorriso plástico. Que eu saiba, é o único lugar da cidade que começa a marchar o preparo do risoto apenas após o pedido do freguês. Comida boa é comida fresca.

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Pois, onde se encaixa o Massimo nessa história? Restaurante conhecido por quatro coisas: comida clássica bem executada, preços altíssimos, não aceitar cartão e, por fim, a simpatia de Massimo Ferrari, cozinheiro, sócio, nome e alma do restaurante. Seu irmão, Venanzio, sempre foi homem dos bastidores. Trabalhar diretamente com o público nunca foi seu dom. Com a saída da estrela máxima do restaurante, após atritos com o irmão, sobraram apenas as duas referências ruins do lugar e a decadência foi inevitável, até seu óbvio fechamento.

Se deixará saudades? Pouco provável, já que seu público não se renovou e, por sua vez, também vem se despedindo dessa cidade que não é assim exatamente conhecida por preservar sua memória.

Minha sugestão? Simples: que nos queixemos menos e passemos a valorizar mais os lugares de que gostamos, pois, do contrário, o risco de eles acabarem se torna maior. Eu, de minha parte, continuarei elogiando e indicando o Santo Colomba, meu italiano clássico preferido da cidade.

Quem gosta, cuida.

PS: Dizem que a adega do Dr. Paulo fica guardada cuidadosamente no Santo Colomba. Como cidadão, penso seriamente em reivindica-la para consumo próprio. É de se pensar também em quantas garrafas de políticos famosos estão na adega do Massimo. Se precisarem de um final digno, estou à disposição.

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