O MBL e a pós-verdade: uma ameaça antidemocrática. Por Ian Vargas

Kataguiri e Arthur do Val, do canal Mamãe Falei

Publicado no Justificando

POR IAN MARTIN VARGAS, graduando em Direito pelo Centro Universitário Dinâmica Cataratas

Recentemente foi compartilhada por milhares de pessoas nas redes sociais a informação de que o cantor Pabllo Vittar seria beneficiado pela Lei Rouanet em cerca de R$ 5 milhões de reais para uma produção musical. A notícia trazia o fato paralelo de que o Hospital de Câncer teria sido fechado por ausência de verba, fato este que trouxe imediata indignação coletiva de muitas pessoas que, antes da informação, possuíam algum tipo de preconceito com o cantor e com a representatividade LGBT no meio cultural.

Surpresa!  A informação era falsa e compõe um dos diversos casos de notícias incorretas espalhadas virtualmente ao longo de 2017.

“Governo de Goiás está distribuindo bonecas com órgão sexual trocado”; “Maria do Rosário e Jean Wyllys se uniram para defender pedófilos”. Estes e tantos outros exemplos vêm ocorrendo assiduamente nas redes sociais brasileiras. O fenômeno, porém, é mundial. Desde as eleições americanas em 2016, o termo “Pós-verdade” vem sendo citado em estudos, artigos, debates intelectuais e até entrou para o dicionário Oxford.

Tal fato se deu, principalmente, após o uso massivo de informações falsas e difamatórias utilizadas no Brexit britânico e na campanha eleitoral dos Estados Unidos de 2016 que culminou com a vitória do inescrupuloso Donald Trump. Todavia faz-se necessário aprofundarmos nas raízes desse fenômeno coletivo de ampla disseminação de informações espúrias e que possui indubitável uso político.

O termo pós-verdade foi utilizado pela primeira vez em meados dos anos 1990 pelo dramaturgo sérvio-americano Steve Tesich e referia-se a supressão da verdade dos fatos. Segundo o dicionário Oxford o termo se relaciona com as circunstâncias onde fatos objetivos possuem menor importância e influência em moldar a opinião pública do que os apelos emocionais e crenças morais na maneira com que se transmitem as informações. Há, evidentemente, uma apatia em relação à verdade.

As notícias falsas e a desinformação são espalhadas virtualmente em um ritmo e nível global assustador e correlacionam-se a um dos efeitos da globalização.

A evolução da globalização caminhou junto com a evolução tecnológica e, desde os anos 1990, do crescimento da influência da Internet. Nesse contexto o surgimento das redes deu lugar a um espaço virtual de interação e propagação de informações. Alguns autores, como Levy[2], que esquadrinham o ciberespaço em análises sociológicas e filosóficas veem a mudança da esfera pública pela influência das redes sociais como  positiva uma vez que fornece aos cidadãos maior capacidade de expressão,  aquisição de informações e associação. Segundo Levy isso colaboraria para aumentar a capacidade cívica do povo de pressionar governos e obtendo assim maior transparência e diálogo democrático.

Grandes nomes como o filósofo alemão Jürgen Habermas[3] observam nas redes sociais da Internet um perfil potencializador de participação política mais efetiva que combina colaboração, interação, mediação, acessibilidade a informações e mobilização. Outros como Luhmann[4], discordam. Para Luhmann, em sua teoria da comunicação, há a ideia de que os meios de comunicação modernos não contribuem para melhoria da participação política ou interação e sim colaboram para a produção contínua do que chamou de “irritações”.

Nesse sentido o avanço das redes sociais teria representado uma certa ruptura paradigmática entre a emissão e a recepção das mensagens. O emissor, a origem e validade da informação perderam importância dando lugar ao teor emocional e moral. Fato este verificado diuturnamente na divulgação de notícias difamatórias e espúrias  feitos no Brasil por grupos como MBL, alguns youtubers e think tanks de extrema-direita e que trabalham em regime de cooperação para desqualificação das esquerdas no geral.

Esse fundamentalismo comunicacional nas redes sociais criou uma espécie de histeria coletiva, quando o falso exercício de direitos fundamentais como liberdade de expressão, liberdade de imprensa e o direito de livre associação dão lugar à proliferação dos discursos de ódio, segregacionismo, racismo, machismo,  misoginia, anti-sindicalismo, anti-socialismo. Os indivíduos que compartilham as informações sem verificar a originalidade do conteúdo, contribuem para ganho de força eleitoral dos grupos políticos que fazem oposição a qualquer grupo ou político progressista.

O compartilhamento desenfreado de notícias falsas acarreta na estruturação de um fenômeno político já conhecido no passado: o fascismo.

Não mais aquele fascismo dos tempos de Mussolini e Hitler, grandes expoentes do ultraconservadorismo e extrema-direita (em frustrantes tempos em que se fala que o nazismo é de esquerda), mas um fascismo cultural virtual, tecnocrático. Não é mais apenas a mídia tradicional que serve o fascismo com sua parcialidade como a demonstrada pelo saudoso crítico do fascismo Umberto Eco[5] em seu último romance Número Zero, onde um grupo de jornalistas preparam um jornal que não tem interesse informativo mas apenas em difamar e chantagear a serviço de seu editor, mas também a própria população através das redes e da falta de consciência ao reverberar fatos falsos. Porém, nitidamente existe um uso político por trás.

Assim como o Ministério da Verdade na obra de Orwell[6], as informações desleais propaladas nas redes sociais servem a grupos reacionários para amplificar e legitimar o ódio. Assim como nos Estados Unidos, segundo Chomsky[7] os governos fazem uso da mídia para angariar apoio da população e assim  legitimar entrada nos confrontos militares.

A mesma direita que incansavelmente acusa inconcebivelmente os direitos e liberdades defendidos por progressistas e humanistas de “politicamente correto” e fruto do marxismo cultural da hegemonia gramsciana, possui agora uma produção constante e articulada de um possível “fascismo cultural” que utiliza das redes para legitimar poder político e enfraquecer as esquerdas e, acima disso, prejudicar a democracia, o pluralismo político e a cidadania.

Portanto faz-se necessário repensar a falta de consciência das redes e a instrumentalização das mesmas para fins político-partidários através da disseminação de difamações coletivas quase que instantâneas. Bauman[8] já apontava para tal perigo das redes de inibirem o medo dos chamados “caçadores” da sociedade de partirem para o ataque raivoso sobre os indivíduos a quem nutrem ódio. O império das mentiras e manipulação das massas não pode voltar a vigorar.

Concluímos com uma famigerada frase tão concernente e atual que relaciona-se com o fenômenos das fake news e seu uso político, proferida pelo pai da propaganda nazista:

Uma mentira dita mil vezes torna-se uma verdade – Joseph Goebbels

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