O milagre da solidariedade: Como a casa que acolhe LGBTs expulsos de casa sobreviveu. Por Walter Niyama

Iran e uma das sedes do programa: inclusão. Fotos de Walter Niyama

A Casa 1 é um centro cultural aberto ao público e uma república de acolhida destinada a LGBTs que foram expulsos de suas casas. O projeto começou em 2015, quando Iran Giusti, na época, redator no Buzzfeed, acolheu uma pessoa LGBT que havia sido expulsa de sua casa por ser homossexual. Ele então ofereceu seu lar para outras pessoas na mesma situação, tendo recebido 50 pedidos, mas conseguiu acolher apenas duas. Foi a partir daí que o projeto começou a ser idealizado.

Hoje o projeto conta com o Sobrado, localizado na Bela Vista, que conta com uma biblioteca, espaço de convivência, atendimento para moradores de rua e, é claro, a república de acolhida, que comporta até 20 residentes. No mesmo bairro, fica o Galpão. O lugar serve de centro cultural oferecendo atividades como pintura, artesanato e yoga. A Casa 1 se tornou referência no ativismo, tanto que Iran foi eleito pelo Guia Gay São Paulo em 2017 o LGBT de São Paulo mais influente daquele ano.

No começo do ano, Iran publicou um texto escrevendo que a Casa 1 teria que fechar, pois com o abandono de empresas parceiras e os gastos, as doações e o financiamento coletivo não eram suficientes para manter o lugar com 20 residentes, 41 crianças frequentando o centro cultural, 300 alunos por mês estudando inglês, espanhol entre outras atividades, além das centenas de pessoas  atendidas online mensalmente.

Mas o projeto pelo qual 200 pessoas foram acolhidas ganhou sobrevida após as pessoas começarem a fazer campanha pelas redes sociais, ganhando visibilidade inclusive com Pabllo Vittar, Gloria Groove e outras celebridades. Conseguiram assim mais de R$ 80 mil para uma meta de R$ 36 mil.

O DCM procurou Iran Giusti. Leia os principais trechos da entrevista.

Iran Giusti, quem é você e por que está nessa causa?

Eu tenho 30 anos, nasci e cresci entre Freguesia do Ó e Pirituba (bairros de São Paulo predominantemente ocupados por famílias de classe média baixa e pobre). Minha família é como grande parte das famílias, aquela que sempre fez de tudo pra gente, (eu e minha irmã) temos uma educação formal. No fim das contas, eu acabei sendo bolsista na FAAP no curso de relações públicas.

Foram quatro anos de um abismo gigante da minha realidade para a da galera. Eu era um guri de 18 anos de Pirituba estudando com metade dos herdeiros da cidade.

Ninguém nunca tinha pegado ônibus na vida e eu tinha que sair correndo pra não perder os que eu tomava (eram três conduções até em casa), mas essa convivência acabou me deixando com um jogo de cintura,  fundamental para todos os meus projetos ao longo dos anos. Apresentando as outras realidades, entendendo a falta de repertório da galera e por aí vai. Hoje, a galera que estudou comigo está nas grandes empresas, então aprendi a entrar com pé no peito mais moderadamente.

Quando foi que você engajou na causa LGBT? 

Iran Giusti: Já na faculdade, meu TCC foi sobre o MIX BRASIl, até então um portal, uma revista e um Festival de Cinema, o festival ainda existe, mas as publicações não resistiram. Dali já fui para agências de publicidade, em jobs relacionados a diversidade. Quando migrei para o jornalismo, já comecei trabalhando com pautas LGBT e dai para o ativismo foi um-dois.

Minha família nunca interferiu muito nos meus processos de atuação política, mas, quando esse trabalho começou a tomar conta da minha vida, rolou aquela preocupação com a minha segurança, mas foi tudo super conversado.

Imaginou que esse projeto cresceria tanto?

Iran Giusti: Nunca imaginei. A ideia da ampliação inclusive era passar de um apartamento para uma casa com dois dormitórios para receber duas pessoas em vez de uma.

Quem te ajudou na fundação da ONG?

Iran Giusti: O Otávio Salles trampou bastante para colocar tudo de pé e logo em seguida o Bruno Oliveira, que segue até hoje como coordenador do centro cultural e total co-organizador do projeto como um todo. Além disso, tivemos uma dezena de pessoas que contribuíram com campanhas e recompensas, em sua maioria, mulheres. A gente costuma falar que a Casa só existe graças aos movimentos feministas.

Como conseguiram dinheiro para tirar a ideia do papel?

Iran Giusti: Começamos com a verba do financiamento coletivo pontual e, ao longo dos meses, o financiamento coletivo foi responsável por 60% da manutenção do projeto, 30% vinham de ações de marketing e 10% ainda do nosso bolso.

Como funciona hoje?

Iran Giusti: Temos dois espaços  alugados, o Sobrado foi alugado no dia 25 de janeiro de 2017 e o galpão, no dia 1 de outubro de 2017.

Vocês oferecem aulas como inglês, espanhol, canto, yoga, certo? 

Iran Giusti: Isso. Já nos primeiros meses da casa, percebemos que precisávamos de uma programação para estabelecer uma relação com aquele entorno e também trazer alternativas para moradores e moradoras.

Por que as empresas que apoiavam o projeto desistiram?

Iran Giusti: A saída das empresas se deu assim que Jair Bolsonaro foi eleito, não sei se foi coincidência ou não. Acabou sendo algo muito emblemático.

O que você fez para não fechar?

Iran Giusti: Escrevi um texto sobre essa ameaça. Por sorte, a Casa 1 sempre foi um projeto bem quisto, em especial por conta da abrangência dos atendimento e por atuarmos com uma demanda que por décadas foi ignorada, que é a expulsão de casa por orientação afetiva sexual e identidade de gênero.

Estão em busca de novas parcerias?

Iran Giusti: Sempre. A gente costuma brincar que estamos sempre na berlinda: movimentos sociais e esquerda entendem a gente como neoliberal demais por articular com empresas, já empresas acham a gente comunista demais pelas nossas pautas e forma de conduzir o projeto.

Uma coisa que chama a atenção é que, mesmo nos dias atuais, pessoas sejam expulsas de casa por orientação sexual. Por que você acha que isso ainda ocorre?

Iran Giusti: O ódio não acabou. Pelo contrário, tem sido estimulado. A gente elegeu o Bolsonaro, e ele tem mostrado basicamente que a única coisa que sabe fazer é disseminar discurso de ódio.

Não me surpreende as pessoas serem expulsas, somos um país racista e LGBTfobico.

Já receberam alguma ameaça por causa do projeto?

Iran Giusti: A gente é um projeto multi, com muitas frentes, e é essa combinação de atuação com todos e todas que nos deu e dá muita segurança. O máximo que tivemos foram xingamentos vindos de carros e algumas ameaças de mesa de bar, mas nada além disso, porém sabemos que, como as coisas estão estruturadas, no país a realidade é outra.

Você já viu histórias de superação, gente que precisou de ajuda da Casa 1 e depois conseguiu seguir em frente?

Iran Giusti: Isso é muito relativo, ser LGBT e ser expulso de casa é só uma das facetas da vida dessas pessoas que em geral sofrem violências institucionais ao longo da vida toda. Sendo assim, ter um morador ou moradora soropositivo/a que passa a aderir ao tratamento de HIV AIDS é uma conquista, ou então um ou uma que volte pra escola. São muitos os avanços em diferentes lugares.

Vai permanecer no projeto até quando?

Iran Giusti: Se tudo der certo, não vou ficar até morrer. A semente está plantada. Avançamos muito no combate ao racismo e LGBTfobia, e estamos em um poço bastante lamacento, que, acredito, está fazendo muita gente enxergar muita coisa. Quem sabe se, com novos governos e lideranças, não consigamos a reforma política e da educação de que tanto precisamos?

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PS: Com Bolsonaro, sem chance.

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