O mito de se atrair o centro. Por Gilberto Maringoni

Luciano Huck. Foto: Reprodução/YouTube

Ninguém mais chama urubu de meu louro, mas é cada vez maior o número de analistas e agentes políticos a chamar a velha direita – DEM, PSDB, PMDB – e seus inigualáveis personagens – FHC, Maia, Alckmin, Huck, Armínio etc. – de centro. Claro! Com a emergência da extrema-direita fascista, a direita limpinha e cheirosa dá curso a uma saída à francesa dessa terminologia.

O centro político sempre foi posição mezzo indefinida, mezzo vaga, mas funciona como um nem-nem palatável por todos. O centro poderia ser algo como o ponto morto do câmbio. Não faz o carro andar, mas basta empurrar que ele vai na direção que o freguês desejar.

Bolsonaro tem um mérito, em meio à regressividade geral. Abandonou a ideia de presidencialismo de coalizão e não quer atrair centro algum. Após entregar as chaves da política econômica para os abutres do mercado financeiro, chuta a velha direita e exibe com nitidez suas posições. São criminosas, mas o indigitado as exibe e defende.

E a esquerda? O setor majoritáro dessa vertente – o petismo – é hoje o verdadeiro centro. Não tem muito o que apresentar ao país, além do saudosismo e do vitimismo, mas é o que temos. Aliás, a história da agremiação nas ultimas duas décadas mostra claramente um movimento rumo ao centro, com preponderância clara das teses liberais no terreno da economia.

O PT é esquerda por contraste. Ou seja, está à esquerda dos setores conservadores brasileiros – de mentalidade escravocrata -, mas cumpriu com competência o papel reservado ao centro ao longo de 13 anos de governo. Conversou, articulou e se aliou a todo mundo, de Maluf aos movimentos sociais, passando por Cabral, Delcídio, empreiteiras, sistema financeiro etc.

A esquerda brasileira que merece esse nome é mínima em termos eleitorais. Em uma situação defensiva, o mais correto é buscar alianças ao centro para enfrentar a barbárie. Aliança, contudo, não é adesão. Aliança é arranjo político repleto de tensões e disputas a cada momento e em cada movimento tático. Não é a aliança em si que pode levar à sublimação de fronteiras programáticas. É a política concreta – para abusar do lugar comum – adotada em cada situação concreta.

Parafraseando Maiakovski (“À esquerda! À esquerda!”), vamos ao centro, ao centro! Contra a barbárie e o desmonte do país, somemos forças. Mas não chamemos urubu de meu louro! E tentemos fazer valer uma direção de esquerda.

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