O Monotrilho é uma solução para o trânsito de São Paulo?

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Ao contrário do que querem fazer você acreditar, o Monotrilho não é solução para o desenvolvimento insano e desorganizado de São Paulo.

Está mais do que na hora da cidade recuar. Ela inchou, não tem mais espaço e a ânsia de crescimento não pára. Super povoada, com trânsito caótico e sem mobilidade urbana. A especulação  imobiliária, no entanto, não se detém — e procura sempre novas áreas, alargando a mancha urbana, expandindo seu limites.

A bola da vez agora é a “extrema” zona sul. Ali, onde ainda existiam riachos e pequenos sítios até, estão surgindo dezenas, talvez centenas, de torres de trinta andares com apartamentos que valem mais de um milhão de reais. A região cresce a olhos vistos e se torna cada vez mais sofisticada.

O monotrilho é movido a eletricidade, tem pneu de borracha e desloca-se silenciosamente sobre apenas um trilho e é possível até se sentir animado, como se de repente a cidade pudesse se transformar em uma espécie de Tóquio.

Mas não é bem assim. A linha 17, que vai da  Marginal de Pinheiro ao aeroporto Congonhas, num percurso de quase 8 quilômetros, parece ligar o nada a lugar nenhum, mas com certeza atende ao crescimento da região. A obra  ergue-se ao longo da avenida Roberto Marinho como um espinossauro gigante, ganhando vida aos poucos—  impossível olhar a estrutura de concreto do monotrilho e não fazer uma relação com os “graciosos” animais jurássicos.

Não há dúvida de que é uma violência estética e funcional erguer um bicho daqueles, sobre colunas de concreto, a 20 metros de altura, rasgando a paisagem urbana sem dó. É “futurista”, diz orgulhosamente o projeto e, sem dúvida, “orna” com as torres emergentes de seus moradores emergentes. Na região, começam a sumir as casas modestas, com ar de interior, para dar lugar a uma megalópole com ar artificial. Os contrastes são evidentes.

No bar do Ananias, seu Ricardo não se conforma com aquele “monstro lá”. Aos 76 anos de estilo de vida típico do interior, a cachacinha do fim do dia na mesma mesa do mesmo boteco, chama o monotrilho de “avião”. “Se anda no ar, só pode ser avião, né?”, diz ele. E ri uma boca desdentada.  Na calçada em frente ao bar, passa a menina de 20 anos, plugada no IPod, voltando da academia para a casa — mora no 25o andar de uma das torres milionárias. “O monotrilho vai ser ótimo pra gente. Mas é meio estranho mesmo”, diz ela, deslumbrada, balançando a chave do Ecosport. Meu nome é Yasmine com ipsilon, diz, batalhando um chiclete entre molares. Não conhece o centro da cidade: foi algumas vezes, mas não se lembra de nada. É longe, mais de 20 quilômetros, por que ela precisa ir ao centro? E, é claro, não faz ideia do que é o Minhocão.

Há algumas semelhanças entre o Elevado Costa e Silva, que rasga o centro da cidade, e o monotrilho. Mas os tempos são outros.

Em 1971, a gente ia ao parquinho da praça Marechal Deodoro e corria atrás da carroça do sorveteiro puxado a cavalo. A região central era um lugar aprazível, com belas construções e um passado sólido, a história da cidade.De repente, surge aquele monstro sobre nossas casas transformando tudo em escuridão. Os prédios da região, alguns bons e confortáveis, passaram a ser favelas verticais. Sob a minhoca grande, vieram morar os sem-teto, o que contribuiu decisivamente para a degradação do centro. E com certeza o então prefeito, Paulo Maluf, autor da obra, não estava pensando nos sem- teto quando construiu esse exemplo de aberração urbana.

O Monotrilho está longe de ser um Minhocão. Mas nele está o mesmo espírito: engenhosas soluções práticas que não levam em conta a humanidade da cidade. Sim, o Minhocão é útil, assim como será o Monotrilho. Num lugar como São Paulo, qualquer solução que se adote, qualquer ponte, avenida, túnel ou trilhos trará benefícios, tantos são os problemas de mobilidade que temos.

Mas há soluções e soluções.

Nos anos 1960, havia uma música que embalava o governo de Adhemar de Barros, conhecido como “rouba mas faz”, um precursor do malufismo. Dizia a letra: “Mais um passo à frente, São Paulo não pode recuar”. Isso há 50 anos.

Meio século depois, São Paulo precisa recuar.

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