O movimento “Não Vai Ter Copa” voltou com tudo — agora, na Rússia

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A Copa do Mundo no Brasil consagrou o futebol coletivo da seleção alemã e também o slogan Não Vai Ter Copa. Entoado como palavra de ordem nos protestos de rua ou como piada nas redes sociais, o mote acompanhou os 12 últimos meses de organização do Mundial de futebol no país. Agora, ele parece pronto a voltar às manchetes para a próxima Copa, em 2018, na Rússia.

O movimento ganhou força na última semana após a queda do MH17, da Malaysia Airlines, em solo ucraniano e subsequente ação dos governos de Estados Unidos e Ucrânia que apontaram Moscou, via apoio militar e logístico aos grupos separatistas da ex-república soviética, como responsável pelo abatimento da aeronave. Desde então, lideranças políticas e esportivas europeias, apoiadas pela promoção concedida pela imprensa estrangeira, vêm pedindo que a Fifa retire o Mundial da Rússia.

O primeiro a aventar tal possibilidade, antes mesmo da derrubada do MH17, foi o inglês Andy Burnham, do Partido Trabalhista, de oposição ao primeiro-ministro David Cameron, braço direito de Barack Obama nos ataques a Vladimir Putin. À BBC, Burnham afirmou que a Fifa deveria “revisitar” sua decisão. Clive Efford, seu correligionário, fez o mesmo. “A Fifa deveria discutir um plano de contingência para caso haja uma escalada de agressões na Ucrânia”, pontuou.

Com o problema agravado após a tragédia do voo malaio, os alemães passaram a engrossar o coro britânico. Especialista em política externa da União Cristã-Democrata, partido da chanceler Angela Merkel, Karl-Georg Wellmann foi enfático. “Não podemos conceder a Copa do Mundo a um país em guerra com um vizinho”, disse. O acadêmico foi acompanhado por Wolfgang Niersbach, presidente da DFB – a CBF germânica – que pediu a mudança de sede, mas acabou caindo em contradição ao sugerir quais países deveriam receber o Mundial. “Observo com preocupação a crise política na Rússia. A Alemanha seria a alternativa adequada, em cooperação com Polônia e Ucrânia”, afirmou ele, referindo-se às duas sedes da última Eurocopa, em 2012.

Porém, quem promove o maior lobby pela perda do direito russo de receber o Mundial daqui a quatro anos, situação que poderia desgastar a imagem do presidente Vladmir Putin, é a imprensa, fato experimentado pelo Brasil durante a organização do megaevento. Colunistas de jornais e sites americanos e europeus têm martelado a ideia de mudança de sede.

Em um dos artigos mais raivosos, Tunku Varadarajan, do Daily Beast, acusa Putin pela morte dos 298 passageiros do MH17 e garante: “O mundo precisa fazer Vladimir Putin pagar com seu orgulho”. O jornalista, assim como outros colegas, defende o ataque esportivo por considerar as sanções econômicas que Estados Unidos e União Europeia vêm impingindo a empresas e cidadãos russos desde março ineficazes na tentativa de abalar a força do presidente perante seu eleitorado.

Aliás, reside aí o grande trunfo de Putin para conter o Não Vai Ter Copa modelo 2018. Há 14 anos dividindo-se entre as funções de presidente e primeiro-ministro, o ex-agente da KGB viu seus índices de popularidade dispararem desde a anexação da Crimeia à Rússia, em março. Segundo o instituto de pesquisas Levada, 86% dos russos aprovam seu governo, maior nível desde que chegou ao Kremlin. A taxa estratosférica, cerca de 10 pontos superior ao que Lula alcançou no final de seu mandato, explica-se pelo silenciamento da oposição interna promovido tanto pela força quanto pelo convencimento.

Após as manifestações massivas deflagradas em toda a Rússia em 2011 por suspeitas de manipulação do resultado da última eleição, vencida com larga vantagem por Putin, o governo endureceu a legislação antiprotesto do país e perseguiu os cabeças do movimento, levando dezenas à prisão. Além disso, a postura do presidente diante do impasse na Ucrânia, onde já chegou a afirmar que “sempre lutará em favor do mundo russo”, reavivou o nacionalismo de seus conterrâneos, ferido desde o fim da União Soviética, e fez, segundo relatos publicados inclusive em veículos pró-Ocidente, muitos cidadãos mudarem de opinião quanto ao presidente.

É dessa sinuca de bico que até agora os governos e imprensa ocidentais não encontraram saída. Os caminhos que serão trilhados, contudo, já estão assinalados. Por um lado, forçar mais numerosas e pesadas sanções para a economia russa, que vem cambaleando recentemente e deve fechar 2014 com crescimento na casa do 1%.

Na outra mão, alimentar um clima de tensão sobre a segurança no país durante o Mundial, salpicada com denúncias de corrupção e gastos excessivos (só os estádios custarão R$ 18 bilhões, mais que o dobro do investido no Brasil), que leve a Fifa a uma inédita decisão de trocar a sede da Copa, o que supostamente envergonharia o país, tornando o povo contra Putin. A Rússia que feche suas caçapas pois o taco está nas mãos do Ocidente e o jogo apenas começando.

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