O novo tango argentino: rejeitam o pacotaço, mas apoiam seu autor. Por Moisés Mendes

Atualizado em 25 de dezembro de 2023 às 8:34
Javier Milei durante discurso após tomar posse como presidente da Argentina. Foto: Luis Robayo/AFP

Os jornais argentinos, incluindo os jornalões, como o La Nación, já desvendaram os nomes do entorno de Javier Milei que participaram da idealização, planejamento e elaboração do pacotaço que pode destruir o país.

Não são nomes de quadros avulsos prestativos arregimentados na extrema direita e no liberalismo. São empresários bilionários e executivos de ponta de grandes grupos, liderados por Eduardo Eurnekian, dono da Corporación América, que administra aeroportos e de quem Milei foi empregado.

E mesmo assim, mesmo sabendo que Eurnekian, seus funcionários e seus empresários amigos fizeram o pacote, Milei tem o apoio de 54,7% dos argentinos.

Não é um jornal de direita que informa que Milei está forte. É o Página12, o maior jornal de esquerda do país. O Página 12 encomendou a pesquisa ao Centro de Estudios de Opinión Pública (CEOP).

Para tornar tudo mais confuso, a mesma pesquisa, divulgada no domingo, diz que 54,4% dos argentinos são contra o mesmo pacote que sequestra direitos dos trabalhadores e os entrega ao mercado.

O resumo: o percentual de argentinos que rejeita o pacote “liberalizante” é alto, é a maioria.

Mas também é maioria, em índice semelhante ao dos insatisfeitos, o número de argentinos que expressam apoio ao sujeito. Vá entender.

O presidente da Argentina, Javier Milei, e o ex-presidente Jair Bolsonaro. Foto: Reprodução

Sabem que o pacote é contra os interesses da maioria, com aumentos já provocados de mais de 100% nos preços de alguns alimentos, 60% nos combustíveis e de mais de 100% até nos preços das fraldas. Mas apoiam o fascista.

Na quarta-feira, haverá o que talvez venha a ser o primeiro duelo do fascistão com os sindicatos. A CGT (Central Geral dos Trabalhadores), a maior central argentina, promete ir às ruas.

A CGT, controlada pelos peronistas, ficou de fora da mobilização frustrada de quarta-feira da semana passada, comandada pelas organizações piqueteiras, de esquerda. Será que desta vez vai dar certo?

Se não der, o tango ficará ainda mais trágico. Se o fracasso se repetir, quem tentará enfrentar Milei nas ruas? Mais do que em qualquer outro país, o povo depende muito das ruas na Argentina.

Publicado originalmente no Blog do Moisés Mendes.

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