O obsceno pedido de poder de polícia de um shopping revela a mentalidade da elite paulistana. Por Donato

Entrada do Shopping Higienópolis

Vivemos no país um estado flagrante de perseguição aos indesejados e anti-higiênicos pobres.

Um shopping de São Paulo, de sugestivo nome Higienópolis, entrou com uma ação na Justiça solicitando autorização para que seus seguranças – de empresa privada terceirizada – possam apreender “crianças e adolescentes desacompanhados”.

Sabe aqueles meninos e meninas com uniforme do Rio Branco ali da vizinhança, ou então os jovens barulhentos que descem de um Uber e circulam sozinhos pelos corredores do shopping? Então, não é desses que estamos falando. O “desacompanhados” tem significado subjetivo.

O pedido é claramente dirigido às crianças que vivem nas ruas da região e, vez por outra, se veem no direito de entrar no local. Para o shopping, eles praticam “atos de vandalismo, depredação, agressão, furtos e intimidação de frequentadores”.

Como ainda existem juízes e juízas ajuizados, o pedido foi indeferido pela juíza Monica Arnoni, da Vara da Infância e Juventude. Segundo ela, a ação movida é inegavelmente “um salvo-conduto para efetivar no estabelecimento uma genuína higiene social”.

O shopping afirmou que irá recorrer da decisão da juíza.

Shoppings centers são locais privados abertos ao público, e por isso devem permitir a circulação de qualquer pessoa sem qualquer tipo de segregação ou preconceito.

Se alguém cometer qualquer ilicitude, crime, roubo, qualquer ato infracional, deve ser denunciado à polícia, seja quem for. As leis e o código penal tipificam e já preveem. Existem para isso mesmo.

Mas o Brasil parece ter se transformado no paraíso das brigadas paramilitares e/ou milícias, pois é isso o que essas empresas oferecem. Um serviço “formal” de milicianos dispostos a vender proteção. A máfia legalizada. Se for preciso, matam.

Pela paz e tranquilidade dos clientes de shoppings e supermercados, eles matam animais, matam pessoas, com uma desenvoltura estarrecedora. Na imensa maioria das vezes por motivos banais.

Higienópolis é desde sempre uma área habitada pelas classes mais abastadas, pelos barões da elite paulistana. Foi a primeira região da cidade a ter encanamento de esgoto e fornecimento de água. A higiene doméstica, daí o nome de batismo.

O problema é que essa tara por higiene parece ter se alastrado para áreas em que a prática não condiz.

Há cerca de 4 anos, um adolescente que morava primeiramente numa árvore (!!) e depois em uma barraca – muito próximo ao mesmo shopping – era atacado sistematicamente por moradores do bairro que jogavam creolina sobre o garoto e seus pertences.

O bairro também ficou famoso pela hostilidade de seus habitantes em relação a abertura de estação de metrô, pois ela traria a reboque uma “gente diferenciada”.

Esse shopping já operou durante quase uma década de forma irregular por desconformidade de aspectos ligados ao estacionamento e chegou a ter o alvará cassado pela prefeitura.

Esses ‘detalhes’, pelo visto, não são tão graves como a desagradável convivência com a pobreza que contrasta com os ricos frequentadores do local. Para ninguém se sentir culpado pela miséria e fome alheias, chame o segurança.

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