
Granada, pequena ilha caribenha independente desde 1974, entrou no centro das disputas da Guerra Fria após investir na construção de um novo aeroporto internacional nos anos 1980. O projeto fazia parte da tentativa de fortalecer o turismo e modernizar a economia local, mas acabou despertando revolta dos Estados Unidos em meio ao avanço da influência cubana e soviética na região, segundo a coluna Terra à vista no UOL.
Maurice Bishop, que assumiu o comando do país em 1979, aproximou Granada de Cuba e adotou medidas inspiradas no socialismo. O novo governo retomou o antigo plano de construir um aeroporto maior no sul da ilha.
Para a administração de Ronald Reagan, porém, a longa pista de 2.700 metros poderia ser usada por aviões militares soviéticos. O governo granadino argumentava que o antigo aeroporto da ilha não comportava aeronaves maiores e limitava o crescimento do turismo.

Mesmo assim, Washington passou a afirmar que o terminal serviria como base militar e rota de abastecimento para movimentos de esquerda na América Central. O deputado democrata Ron Dellums chegou a visitar a obra e declarou ao Congresso americano que o aeroporto tinha finalidade econômica e não militar.
Bishop foi deposto em 1983 e executado após um golpe liderado por militares. Dias depois, os Estados Unidos anunciaram preocupação com a segurança de centenas de estudantes americanos de medicina que viviam na ilha e organizaram uma intervenção militar.
À época, Reagan estava no pior momento de seu mandato, com uma taxa de aprovação de 35%. O país passava por uma alta no desemprego, que ultrapassava os 10%, e o então mandatário decidiu usar a invasão como pretexto de “proteger os americanos” e “restaurar a democracia”. A mesma estratégia foi usada por Donald Trump 43 anos depois.

Em 25 de outubro de 1983, tropas americanas e aliados caribenhos iniciaram a operação “Fúria Urgente”. Cerca de 7,6 mil militares participaram da invasão, incluindo fuzileiros navais, batalhões Ranger, SEALs e integrantes da Delta Force. A resistência foi derrotada e um governo provisório assumiu o controle do país.
A ação provocou reações internacionais. A Organização das Nações Unidas (ONU) classificou a invasão como violação do direito internacional, enquanto a então premiê britânica Margaret Thatcher reclamou por não ter sido consultada sobre a operação em um membro da Comunidade Britânica.
Nos anos seguintes, Granada retomou relações diplomáticas com Cuba e reconstruiu sua economia baseada no turismo. Em 2008, o país inaugurou um monumento em homenagem aos cubanos mortos durante a invasão. Muitos deles trabalhavam justamente na construção do aeroporto quando foram atingidos pelo conflito.
O terminal que motivou a crise recebeu, em 2009, o nome de Maurice Bishop. Atualmente, o aeroporto é a principal porta de entrada de turistas na ilha caribenha e permanece como símbolo de um dos episódios mais controversos da política externa americana durante a Guerra Fria.