O papel da esquerda na luta contra Bolsonaro. Por Emir Sader

Fora, Bolsonaro!

1. O pais estava em uma situação de empate, de equilíbrio entre o golpe e o impeachment. Nem Bolsonaro estava em condições de dar o golpe, embora fizesse sistematicamente ameaças, nem a oposição estava em condições de impor o impeachment. Bolsonaro foi sendo cercado juridicamente com os processos das fake news sobre um filho, o das mobilizações antidemocráticas com o gabinete do ódio, e a própria chapa dele no TSE. Ele foi moderando a linguagem, buscando retomar laços com o STF. A oposição, por sua vez, perdeu apoios para o impeachment: PSDB, Cid Gomes, Gilmar Mendes, presidente do MDB. Havia uma espécie de empate catastrófico, porque o paÍs continua a se desfazer, tanto em termos de crise de saúde publica, como econômica e social.

2. O governo passou a se sustentar, com a saída do Moro e o tema da luta contra a corrupção, no tripé: empresariado, militares e Centrão. A manutenção do Paulo Guedes garante o apoio do empresariado. O apoio dos militares, com o aumento deles no governo (se fala de mais de 3 mil) e da entrega do Ministério da Saúde. E a aliança com o Centrão, para tratar de impedir o impeachment no Congresso.

3. A prisão de Queiroz muda o cenário político, com projeções incalculáveis. Pelo papel central que ele tinha nas finanças da gangue e de outras atividades, suas declarações e as da sua mulher podem revelar mecanismos de funcionamento do núcleo familiar do poder que o abale publicamente. Bolsonaro encolheu, os filhos também, na expectativa das revelações. No caso do ex-advogado, Wassef, também há uma fonte de revelações incontroláveis. É preciso saber quanto essas revelações abalam o apoio daquele tripé. O Centrão é o apoio mais incerto, embora já tenha recebido cargos polpudos no governo, mas tem menor coesão interna. O único sintoma novo no empresariado é o surgimento de uma oposição na Fiesp. Os militares, que estavam marginalizados politicamente e se sentiam desmoralizados com a Comissão da Verdade e encontraram no Bolsonaro a reivindicação de toda sua ação – golpe, tortura, torturadores, etc. – entraram no governo pela falta de pessoal de governo do Bolsonaro, com seu partido se esfacelando. Sua entrada no ministério da saúde é muito arriscada, porque joga seu prestígio como supostos bons gestores. Não houve nenhuma defecção, salvo de alguns militares que o Bolsonaro tirou do governo, por brigas pontuais, que agora fazem declarações criticas ao Bolsonaro. Mas a situação passou a estar aberta.

4. Reaparecem as especulações da eventual substituição do Bolsonaro pelo Mourão, mas é uma operação de muito risco. A situação de Bolsonaro e os seus filhos é tão frágil, que sabem que se ele sair do governo, todos correm risco de ser presos e condenados. (Bolsonaro se dá conta de que mesmo o Temer, que fez tudo o que a direita queria, em algum momento foi preso.) Mas seria a melhor solução para a direita (empresariado, mídia, Judiciário). Corre o processo de anulação da chapa no TSE, que aparentemente teria poucas possibilidades de prosperar. Salvo se a chegada do celular do Bebianno tenha revelações sobre a campanha eleitoral, que altere esse quadro. Mas dá a impressão de que a direita não tem uma direção centralizada, como tinha nas campanhas eleitorais contra o PT, com o bloco de principais donos da mídia funcionando como uma espécie de direção partidária da direita. Há um núcleo empresarial, militar e partidário que segue com o Bolsonaro. A mídia está em posição francamente opositora a ele, mas não à sua politica econômica. O STF encontrou um espaço para si, colocando limites nas maiores arbitrariedades e aparecendo como se fosse o defensor do Estado de direito e da própria democracia (depois de ter sido fundamental na ruptura da democracia e na própria vitória do Bolsonaro). A capacidade de governar do Bolsonaro fica restringida, com grande quantidade de iniciativas bloqueadas. Mas nada que impeça o funcionamento da política econômica do Paulo Guedes. Nem a distribuição dos cargos para os militares e para o Centrão.

5. O principal problema para a esquerda é que as contradições no campo da direita ocupam o centro da politica nacional, deixando a esquerda como protagonista secundária, pressionada a tomar posição entre os polos da direita. Claro que o seu horizonte é o Fora Bolsonaro, mas setores da direita também estão pelo impeachment. A esquerda se diferencia porque quer o Fora Bolsonaro, Mourão e a política neoliberal do Paulo Guedes. Mas o objetivo imediato é tirar o Bolsonaro, porque ele é o responsável pelas três crises que sofre o pais: a de saúde publica, a econômica e social, e a politica. Com ele, não se pode avançar nada e o povo sofre muito com o vírus, a recessão e o desemprego.

6. O maior obstáculo para o Fora Bolsonaro é que ele não paga o preço nem da pandemia, nem da recessão. Seu discurso joga as culpas nos outros, como ele sempre faz. Seu desgaste, pelas pesquisas, é pela crises politicas que ele gera, brigando com todo mundo, pelas açoes dos filhos, pela falta de tranquilidade para o país, cansado de conflitos. Para criar um clima nacional de não aguentar mais o Bolsonaro, é necessário fazer com que ele apareça para todos como culpado pela morte de cada brasileiro por minuto todos os dias, pela depressão econômica e a precariedade no trabalho, que já atinge a metade da população brasileira. Os outros obstáculos – falta de 2/3 no Congresso, obstáculos jurídicos e outros – podem ser superados, se se consegue criar um clima nacional contra o Bolsonaro, fazê-lo culpado, diante da grande maioria da população, pelos males que o Brasil vive, pelo pior momento que o país já viveu. Até que o Basta Bolsonaro seja uma realidade para a grande maioria do povo.

7. É possível que ocorra como ocorreu com o Collor: se derrube o Bolsonaro, mas não se consiga derrubar a politica econômica. Mas será uma vitória para a democracia, para o povo, para o Brasil, que dará mais confiança ao movimento popular para as lutas futuras. Mas isso pode ser discutido depois.

OO.x.x.x.

PUBLICADO ORIGINALMENTE NO FACEBOOK DO AUTOR

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