O Paradoxo Haddad: matador das ciclovias ou salvador das marginais? Por Kiko Nogueira

A modelo Mariana Rodriguez, morta num cruzamento de SP quando estava de bicicleta
A modelo Mariana Rodriguez, morta num cruzamento de SP quando estava de bicicleta

 

O baixo nível do debate sobre mobilidade urbana em São Paulo, contaminado pela politização e a “fulanização”, chegou num ponto crítico na semana passada. A modelo Mariana Livinalli Rodriguez morreu atropelada por um ônibus na Avenida Faria Lima. Mariana estava de bicicleta.

Embora o acidente tenha ocorrido num cruzamento, imediatamente os espaços criados para as bikes foram responsabilizados — e, por extensão, o prefeito Fernando Haddad.

Jornais como o Estadão marretaram a desinformação: “Piora estado de saúde de modelo atropelada por ônibus em ciclovia”, foi a manchete do dia 3. Os colunistas de sempre já se esbaldaram no linchamento.

O resultado dessa campanha se materializou no pai de Mariana, Heber Rodriguez. “Pelo que eu vi dessas ciclovias, a parte que eu conheço de São Paulo, já que eu já estive em julho vendo a minha filha em uma peça, eu fiquei horrorizado”, disse. “Acho que tem que ter muito além do que pintar uma faixa na rua e achar que isso é suficiente”.

Heber está compreensivelmente devastado diante da perda de sua filha. Mas é sintomático que responsabilize, de cara, uma entidade abstrata, baseado num julgamento apressado. De Minas Gerais, parentes do programador do DCM, Tiago Mendes, pediam no WhatsApp a cabeça de Haddad, o “assassino”.

Em meio século de expansão do asfalto para os carros, com todos os acidentes que ocorrem todos os dias, com todas as mortes, nunca se culpou o prefeito — e com razão. É uma novidade que está sendo legada ao resto do mundo.

Isso é tão tolo e irresponsável quanto chamá-lo de, digamos, salvador de vidas pelos resultados da diminuição de velocidade nas marginais.

De acordo com a Companhia de Engenharia de Tráfego, o número de acidentes com mortos e feridos caiu 27% após seis semanas de redução: 159 em 2014 contra 116 neste ano.

Apenas com relação a vítimas fatais, a quantidade diminuiu pela metade: seis em 2014, três em 2015. três. Os acidentes sem vítimas caíram 15%, de 373 para 317. A ideia é impor o limite de 50 quilômetros por hora às vias mais importantes da cidade.

Estamos diante do Ciclohomicida ou do Anjo do Tráfego?

Nenhum dos dois, evidentemente, mas de alguém tentando encontrar soluções para um problema cada vez mais agudo das grandes metrópoles. Entre outras razões porque foi eleito para isso.

A gritaria dos paulistanos, que acaba sendo repetida em outros estados, joga a discussão no lixo e favorece o aparecimento de oportunistas.

Em 2016, donos de carros e bicicletas, gente que anda de ônibus, metrô e táxi vão ter nas eleições um punhado de nomes que são resultado dessa histeria: Datena, Feliciano, Russomanno etc.

Parabéns aos envolvidos.

 

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