O pecado de Jô na entrevista com Jout Jout. Por Nathalí Macedo

Ele estava desinformado
Ele estava desinformado

A entrevista da vlogger Júlia Tolezano no programa do Jô me causou duas sensações antagônicas: a alegria de ser contemporânea a uma mulher que fala de feminismo de uma maneira tão lúcida e incrivelmente leve – mesmo em rede nacional – e a frustração por perceber que mesmo as personalidades mais aparentemente coerentes (como o Jô) podem se revelar completamente perdidos em questões cruciais da atualidade.(Aqui o vídeo.)

O fato é que Jô Soares – que já conduziu entrevistas homéricas, diga-se de passagem – mostrou-se alheio ao trabalho da entrevistada e ao próprio feminismo do início ao fim.

Em certo ponto da entrevista, ele comenta que “achava que Jout Jout era uma garota de quinze anos com um batom vermelho”: eis o primeiro indício de que ele realmente não sabia de quem se tratava – uma mulher feita, com ideias maduras e uma noção fantástica de liberdade e igualdade de gêneros. A entrevistada, que provavelmente notou o peso do comentário, relevou com o bom-humor habitual.

Devemos considerar, é claro, em nome da justiça e da coerência, que estamos falando de um homem nascido em 1938 (a apenas seis anos da conquista feminina ao voto, por exemplo), que provavelmente cresceu envolto em uma cultura patriarcalista que cultiva a ideia de que existem mulheres com “cara de puta”, o que explicaria (mas não justificaria) os comentários sexistas.

Mas, em nome da mesma coerência, consideremos: estamos falando de uma figura pública, apresentador, músico, escritor, jornalista, diretor de teatro. Estamos falando de um artista respeitado, de um formador de opinião. E formadores de opinião precisam, antes de tudo, assumir a responsabilidade sobre o próprio poder de influência. Isso significa uma obrigação inescusável de atualizar-se, amadurecer as próprias ideias, tomar conhecimento daquilo que acontece à sua volta – como uma vlogger influente da nova geração, por exemplo – reciclar-se, enfim.

Jout Jout declarou que se sentiu desconfortável diante dos comentários sexistas do entrevistador, e ela não foi a única. Desconforto – vergonha alheia, em português mais coloquial – é o sentimento uníssono ao ver que uma figura como o Jô está alheia à ideia de igualdade de gêneros, tão efervescente nesta geração.

O que a Vlogger não conseguiu responder – pela perplexidade evidente – é que, não, não há mulheres com “cara de puta”; há uma cultura moralista que relaciona comportamentos simples – como uma cor de batom, por exemplo – à sexualidade, de uma maneira perjorativa e ignorante.

O fato é que Jô Soares poderia ter ocultado o próprio sexismo – e evitado toda a repercussão negativa da entrevista – se houvesse se dado ao trabalho de atualizar-se, ainda que superficialmente, sobre o trabalho da convidada. Se houvesse compreendido que o mundo está mudando e a imprensa precisa mudar junto. E, diante disso, uma certeza: nós realmente precisamos de novos formadores de opinião.

Bem-vinda, Jout Jout.

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