A morte de Juan Ocerin (1963-2013), ex-diretor geral da Editora Globo. Por Paulo Nogueira

Juan Ocerin
Juan Ocerin

TEXTO REPUBLICADO A PROPÓSITO DO ANÚNCIO DE JORGE NÓBREGA PARA PRESIDIR A GLOBO, DIA 14/12/2017, NO LUGAR DE ROBERTO IRINEU MARINHO. NESTE ARTIGO, A PROPÓSITO DA MORTE DE JUAN OCERIN, O JORNALISTA PAULO NOGUEIRA, QUE FOI DIRETOR DA EDITORA GLOBO, REVELOU QUEM É E COMO AGE O EXECUTIVO QUE A FAMÍLIA MARINHO ESCOLHEU PARA PRESISIDR O GRUPO GLOBO. UM CUMPRIDOR DE ORDENS FRIO E IMPLACÁVEL, EXECUTOR DAS DECISÕES QUE NÃO FAZEM SENTIDO DO PONTO DE VISTA GERENCIAL, QUE SÓ O EXERCÍCIO SÁDICO DO PODER É CAPAZ DE EXPLICAR.

Se há um caso que mostra a política de recursos humanos da Globo, para mim, é o de Juan Ocerin.

Juan, basco especialista em corte de custos e com passagem pela Booz Allen e pela Volks, era diretor financeiro do Globo quando, numa emergência, foi deslocado para o cargo de diretor geral da Editora Globo, há pouco mais de dez anos.

Não tinha talento ou experiência editorial, o que não impediu a empresa de dar a ele um cargo em que mandava nos editores, incluído eu num período de quase três anos. Tivemos uma convivência turbulenta, em grande parte porque ninguém nas Organizações Globo disse a Juan que ele não deveria se intrometer no conteúdo.

Juan não era o homem certo para o cargo, é verdade. Mas a forma como a Globo lidou com o caso foi, de longe, a maior aberração que vi no capítulo da administração das pessoas em minha vida.

Juan, no final de 2007, apresentou os planos da Editora Globo para o ano seguinte, numa reunião com os acionistas e mais um pequeno grupo, do qual fazia parte Jorge Nóbrega, principal conselheiro dos Marinhos. Também eu estava nela.

Era a costumeira reunião anual que está na rotina de qualquer negócio. Naquele ano, a novidade é que os primogênitos dos Marinhos estavam presentes pela primeira vez.

Eles, os netos de Roberto Marinho, como que estavam sendo apresentados aos negócios da família. Participaram não apenas da apresentação da editora mas de todas as mídias da casa.

“Não gosto deste espanhol”, comentou Roberto Irineu Marinho, presidente da Globo, depois da reunião. Era uma conversa agora particular, e nela estavam apenas os Marinhos e mais Nóbrega.

“Você é o chefe”, disse o filho de Roberto Irineu. “Manda embora.” Essa história me foi contada por Frederic Kachar, que fora levado para a editora por Juan como diretor financeiro e acabaria sendo escolhido para substituí-lo.

Acionistas não mancham as mãos. Coube a Jorge Nóbrega a execução.

Demitiu Juan entre o Natal e o Ano Novo
Demitiu Juan entre o Natal e o Ano Novo

O que mais me chamou a atenção no episódio foi a data escolhida: o intervalo entre o Natal e o Ano Novo. Nóbrega era uma espécie de mentor dos jovens Marinhos: poderia ter a chance de ensinar alguma coisa a eles no capítulo da decência na gestão dos empregados. Não demitir entre o Natal e o Ano Novo, por exemplo. Mas não fez isso.

Os detalhes posteriores são tragicômicos. Juan foi convocado por Nóbrega para uma reunião no Rio, logo depois do Natal. Ele imaginou que se tratava de repassar os números, e trabalhou neles exaustivamente nos dias anteriores.

Pouco antes de embarcar para o Rio, apanhou um pacote de cds de música clássica que ganhara dos parceiros alemães da revista Focus para dar de presente a Nóbrega. Nem bem entregou o presente recebeu a notícia.

Quanto Juan ficou perturbado presenciei nas semanas seguintes. Ele fazia reuniões como se nada tivesse ocorrido, embora a data de sua saída já estivesse acertada para março.

As explicações que foram dadas variaram. Nóbrega me disse que João Roberto Marinho, o editor da família, ficara incomodado com os encontros que Juan vinha promovendo com políticos em São Paulo. “Encontros com políticos são prerrogativa do João”, me disse Nóbrega.

Achei estranho. Eram conversas banais, agendadas pelos editores da Época. Estive em todas, e não havia rigorosamente nada nelas que ameaçasse o monopólio de João Roberto.

A versão de João foi outra. “Ele foi mandado embora porque é espanhol”, me disse João. Ora, Juan era espanhol, naquela altura, fazia 46 anos. Segundo João, a legislação não permitia que um estrangeiro ocupasse o cargo que Juan ocupava.

Fiquei com a impressão de que ele apanhou a primeira desculpa que encontrou na mente e me apresentou. Juan passara sete anos no cargo. Se era verdade, a Globo desrespeitara a lei naquele tempo todo.

Foi tudo tão malfeito que a saída de Juan teve que ser antecipada por causa de sua perturbação. Ele vinha manobrando para sabotar o sucessor apontado, Kachar, e assim permanecer pelo menos mais algum tempo.

A saída foi miserável. Diante do tumulto da sucessão atrapalhada, a empresa fechou a porta de seu escritório certo dia. Antes de sair, Juan falou aos executivos. Fez, como comentei com amigos na época, seu melhor discurso. Foi uma surpresa para mim, uma vez que jamais vira nele qualquer talento oratório. Juan evocou a força dos bascos para enfrentar as tempestades.

Pouco depois, saí eu. Fui para Londres, e não tive mais notícia de Juan.

Até receber, hoje, uma mensagem de um amigo no Facebook. Juan se matou este final de semana no Rio e foi cremado, aos 49 anos.

Que descanse em paz.

 

 

 

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