O pior cego é o que não quer ver. Por Fernando Brito

Jair Bolsonaro na China. Foto: Agência Brasil

Publicado originalmente no blog Tijolaço

POR FERNANDO BRITO

O abalo nos mercados mundiais, ontem, assustou, mas não convenceu os especuladores de que os efeitos da crise sanitária na China vai impor uma retração econômica que não é destas que se resolverá de uma semana para outra.

O gráfico da Universidade John Hopkins, mostra que a epidemia está muito longe de ter alcançado seu pico e, ao contrário, incrementa o número de atingidos em taxas acima de 50% ao dia, apesar das medidas de isolamento – impensáveis no Ocidente – de mais de 50 milhões de pessoas na áreas mais vulneráveis.

Mesmo que não e espraie internacionalmente – ou, pelo menos, fora do Sudeste Asiático – vai dar um tombo na demanda chinesa por importações, tanto pela queda do consumo quanto pela queda da atividade industrial.

O leitor deste blog observou que, desde o final da semana passado deu-se uma atenção ao caso que só ontem a grane imprensa passou a dar, em função da derrubada de quase 4% na Bolsa.

As comparações com a epidemia de Sars, em 2002/2003 são inservíveis: a China não era nem a sombra do que é para a economia brasileira.

Hoje, é provável, salvo pelo surgimento de uma “notícia forte”, vai ensaiar-se alguma “recuperação”, provocada apenas pela oportunidade de “comprar barato”.

Este é o vício – ou a natureza – do mercado especulativo, mas não há nada, no mundo real, que dê amparo ao “wishful thinking” de que o pior já passou.

Trata-se, porém, de nosso maior mercado de exportação e da maior fonte de investimentos em infraestrutura de que dispomos hoje. Compras e investimentos chineses, é claro, vão diminuir, embora continuem a ser os maiores por aqui.

Justo na hora que, em matéria de divisas estamos sem alternativa senão a queima de reservas nacionais, duramente acumuladas na era dos “malditos” governos petistas.

Ontem, registrou-se aqui a repetição de déficits na balança comercial. No campo financeiro, até o dia 22, registrou-se uma perda de R$ 11,3 bilhões no mercado secundário de ações, o que antecipa uma perda mensal na ordem de R$ 15 bilhões, quando janeiro terminar, o que é, apenas no primeiro mês do ano, um terço de tudo o que saiu no ano passado.

Sem projeto próprio e sem avanços no consumo – veja aqui a análise de Luís Nassif sobre o desempenho da indústria – estamos “pendurados” na entrada de capital.

E o capital internacional, ao menos neste primeiro semestre, está em quarentena.

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