
No verão de 2022, enquanto o presidente Joe Biden defendia a maior legislação climática da história dos Estados Unidos e classificava o aquecimento global como um “perigo claro e presente”, aliados do ex-presidente Donald Trump já planejavam desmontar a política ambiental federal em um eventual retorno republicano ao poder.
Documentos analisados pelo ‘The New York Times’ indicam que quatro nomes ligados ao governo anterior atuaram nos bastidores para reverter medidas adotadas desde 2009. Entre os articuladores estão Russell T. Vought e Jeffrey B. Clark, ex-integrantes de alto escalão da gestão Trump.
Vought criticou o que chama de “alarmismo climático”, enquanto Clark descreveu regras ambientais como uma trama “leninista” para controlar a economia. Ambos redigiram minutas de decretos com o objetivo de permitir que um novo governo republicano revogasse regulações climáticas.
Também participaram Mandy Gunasekara e Jonathan Brightbill, advogados conservadores com histórico de atuação contra políticas ambientais. Segundo documentos, eles buscaram montar um “arsenal de informações” para contestar o consenso científico sobre o aquecimento do planeta.
A maioria da comunidade científica sustenta que gases como dióxido de carbono e metano intensificam eventos extremos e elevam o nível do mar. O foco da ofensiva é a chamada “endangerment finding”, determinação científica adotada pela Agência de Proteção Ambiental (EPA) em 2009, que reconhece que gases de efeito estufa ameaçam a saúde pública.

A medida sustenta a autoridade federal para impor limites a emissões de carros, usinas e indústrias. A eventual revogação pode comprometer a base legal de futuras regulações climáticas. “Estamos bem perto da vitória total”, afirmou Myron Ebell, que colaborou na transição da EPA no primeiro mandato de Trump.
Segundo ele, conservadores trabalharam por anos para preparar a contestação à determinação. No primeiro governo Trump, a agência rejeitou pedido para rever a conclusão científica, sob o argumento de que não havia base institucional para isso.
Em 2022, Gunasekara e Brightbill buscaram US$ 2 milhões para uma campanha sigilosa destinada a estruturar fundamentos técnicos e jurídicos para derrubar a determinação já no “Dia 1” de um novo governo republicano. A estratégia, segundo proposta obtida por investigadores, operaria discretamente para evitar desgaste público.
Clark, que já havia defendido que a Lei do Ar Limpo não autorizava a regulação de gases de efeito estufa, retomou a ofensiva ao se juntar ao Center for Renewing America, liderado por Vought. Ele classificou ambientalistas como “culto climático maluco” e comparou políticas ambientais aos porcos autoritários de “A Revolução dos Bichos”, de George Orwell.
Com o retorno de Trump à Casa Branca, o advogado assumiu função estratégica no Escritório de Informação e Assuntos Regulatórios, enquanto ele voltou ao comando do Orçamento.
Segundo fontes, ambos passaram a pressionar pela revogação da determinação científica. Para Neil Chatterjee, ex-dirigente do setor energético, “São os ativistas puramente ideológicos que acreditam que a mudança climática é uma farsa”. E concluiu: “Este é o momento deles”.