Com porte de armas cancelado pela PM do Rio, Gabriel Monteiro já foi acusado de tentativa de homicídio. Por Joaquim de Carvalho

Gabriel com seus ídolos: “Mamãe Atirei” do Rio de Janeiro

O youtuber e soldado da Polícia Militar Gabriel Monteiro está usando um processo administrativo aberto contra ele para chamar a atenção de seu público, provavelmente de olho nas eleições.

Em razão do processo, perdeu o porte de arma, segundo ele mesmo contou na rede social. Em uma publicação, divulgou um boletim em que consta uma sindicância aberta contra ele, na Corregedoria da PM do Rio de Janeiro, por transgressão disciplinar de natureza grave.

Ele teria tratado o coronel reformado da PM Ibis Pereira de forma desrespeitosa, em duas ocasiões no final do ano passado. É o que ele diz. Mas a capivara do cidadão é mais longa.

No ano passado, deu soco em um jovem durante o velório da menina Ágatha Félix. Em outubro de 2018,  deu tiro em um motorista por aplicativo, em São Gonçalo, numa região de balada. Detalhe: estava fora de serviço.

Nesse caso do tiro que pode caracterizar tentativa de homicídio, imagens entregues à polícia pelo advogado do motorista Wallacy Gabriel Freitas dos Santos Gomes Pacheco mostram a cena de um crime.

Gabriel se aproxima do carro de Wallacy, juntamente com outra pessoa. Wallacy sai do carro, e Gabriel atira.

Tem jeito de execução, mas a partir daí se desenrolou um conflito de versões que, vistas à distância, parecem dar razão ao motorista.

Gabriel disse que foi vítima de tentativa de assalto.

“Ele saiu do veículo gritando ‘perdeu’ com uma arma em punhos, metendo a mão na cintura, com a arma em punhos. Com isso, houve uma defesa minha, que eu vim para trás e fui e efetuei o disparo, gritando polícia. Nesse momento, ele coloca a mão na barriga, deixa a arma cair, eu olho a materialidade, recolho, e vou atrás dele para exaurar (sic) a voz de prisão”, disse o policial em entrevista ao programa Cidade Alerta, da Record.

Wallacy não tinha nenhuma arma. O que ele segurava era um grampeador, que foi apreendido pela polícia.

Segundo testemunhas, ele tinha usado o equipamento emprestado alguns dias antes para fixar na parede a decoração de aniversário da filha.

No dia do crime, conforme relatos no inquérito, estava nas proximidades de uma escola de samba juntamente com outros motoristas por aplicativo, à espera de corridas.

Em determinado momento, Wallacy deixou o local para buscar um cliente com quem havia agendado uma corrida.

Ao virar uma rua, perto de um posto de combustível, freou bruscamente diante de três pessoas — um delas, Gabriel, que não gostou.

De acordo com esses relatos, o policial, que não estava de serviço, foi tirar satisfação com Wallacy, que desceu do carro com o grampeador na mão, para simular que estava armado e desencorajar o oponente. Foi quando levou o tiro.

Uma motorista por aplicativo, Andrea da Conceição, que estava nas proximidades e conhece Wallacy, contou:

“Eu segurei o Wallacy e o policial armado ficou mandando eu largar ele, chamando ele de vagabundo. Meu amigo entrou em um carro que estava com as portas abertas no posto de gasolina e foi ameaçado com arma na cabeça por esse policial, que estava descontrolado. Eu tirei ele desse veículo e socorri ele com meu próprio carro até o Pronto Socorro”.

No dia seguinte, motoristas organizaram um protesto em frente ao hospital.

Na 73a. Delegacia Policial, no entanto, a história começou a mudar.

Gabriel deu a versão de que o motorista havia tentado roubá-lo.

Não faz sentido, já que Wallacy usava um carro alugado em seu nome e estava de serviço. Além disso, basta olhar as imagens para ver que não é uma cena característica de assalto.

É Gabriel quem vai na direção do carro. Em que lugar do mundo, a vítima vai atrás do ladrão, que está dentro do carro?

Pra reforçar sua versão e, consequentemente, evitar uma acusação de tentativa de homicídio, Gabriel apresentou duas infrações atribuídas a Wallacy quando ele era menor de idade: suposta tentativa de roubo e porte ilegal de arma.

Mesmo diante de uma versão frágil contada pelo policial, Wallacy teve a prisão preventiva decretada pela justiça.

Depois de permanecer internado e ser levado para a cadeia, onde ficou mais de uma mês, foi solto.

Na primeira audiência com o juiz, ao relatar sua versão, foi colocado em liberdade, mas hoje, por medo, não denuncia o policial à corregedoria.

O processo segue na justiça. O advogado dele tem expectativa de que, verificado os relatos e as provas, o próprio juiz encaminhe o caso ao Ministério Público, para apurar a responsabilidade de Gabriel.

Enquanto isso, o policial segue na sua nova função na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, como assessor do deputado bolsonarista Filippe Poubel.

Gabriel foi nomeado no início do mês, depois de ser liberado pelo Comando da PM.

Também segue divulgando vídeos em seu canal do YouTube, que tem quase 700 mil inscritos. Alguns vídeos têm mais de 1,5 milhão de visualizações.

Ele é do MBL e já postou foto com seus ídolos Kim Kataguiri e Arthur Mamãe Falei.

Gabriel segue defendendo o liberalismo econômico, provocando manifestantes de esquerda, sempre com uma câmera na mão e uma arma na cintura.

Apresenta-se como uma versão carioca do Mamãe Falei, que se elegeu deputado estadual em São Paulo, mas poderia adaptar o codinome.

No caso dele, soa melhor “Mamãe, atirei”. E no episódio que se tornou público, quase matou.

Motoristas por aplicativo protestam contra o PM/youtuber em frente ao hospital

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Procurei Gabriel em seu novo trabalho, na Alerj. A atendente, Priscila, anotou o recado, mas ele não retornou.

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Na reportagem, publicada no Cidade Alerta, as imagens mostram cena improvável de uma tentativa de roubo: é o policial, à paisana, que vai na direção do suposto ladrão, que está dentro do carro. Preste atenção no vídeo, não na reportagem, que compra a versão do PM.

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