O pó no colo de Bolsonaro. Por Moisés Mendes

Jair Bolsonaro. Foto: SERGIO LIMA/AFP

Publicado originalmente no Extra Classe

Um avião brasileiro flagrado com cocaína na Europa seria apenas mais um avião com drogas, se não fosse uma aeronave da FAB e da frota presidencial de Bolsonaro. Um homem com 39 quilos de cocaína a bordo de um avião das Forças Armadas seria um traficante atrevido, se não fosse um sargento das equipes de apoio das viagens presidenciais de Bolsonaro.
Nada do que envolve os Bolsonaros, considerando o pai e os filhos, é apenas o que parece ser. Tudo o que acontece com eles e o entorno – e principalmente os fatos que têm relação com algum delito –assume significados para muito além do que seria normal.

Bolsonaro é o caçador de bandidos que simula atirar em alguém no chão em uma festa de exaltação a Jesus Cristo. E recebe aplausos por isso. É o disseminador e institucionalizador da frase ‘bandido bom é bandido morto’ dos pregadores de extermínios.

Bolsonaro enxerga bandidos em qualquer ativista de movimentos sociais. No dia em que foi eleito, anunciou que eliminaria ou colocaria a correr seus inimigos de esquerda.

O governo Bolsonaro chamou Sergio Moro para Brasília para caçar bandidos. Moro iria pegar corruptos graúdos (menos os da direita) e traficantes grandões e iria acabar com o crime organizado.
Moro não pegou ninguém até agora, seu plano de combate ao crime é boicotado pelo Congresso, perdeu o controle do Coaf e foi incapaz de contribuir, como chefe da Polícia Federal, para o aperfeiçoamento dos controles que evitariam a presença de um traficante internacional na comitiva do chefe.

Enquanto o sargento Manoel Silva Rodrigues era preso em Sevilha, Moro despachava pelo Twitter uma mensagem exibicionista, apesar de sua agenda nos Estados Unidos ser secreta. Havia visitado pouco antes, para tratar de intercâmbios, o Drug Enforcement Administration, o poderoso DEA, que combate o narcotráfico inclusive fora do território americano.

Moro repetia que iria tratar de ações em conjunto com os Estados Unidos porque “o crime agora é transnacional” (que descoberta). E o sargento brasileiro no avião da FAB ajudou a provar que também nós somos transnacionais.

Um quadro da estrutura militar a serviço do governo traficava dentro de uma estrutura oficial e em viagem internacional do presidente da República. Dizem que o sargento já teria viajado com Dilma para Juazeiro e Cabrobró e que viajou antes com diplomatas para a Europa.
Sugerem que não virou traficante nessa viagem. É bem provável que não, mas não é isso o que importa. O militar é um sujeito atraído pela tentação do tráfico, como acontece em quaisquer áreas, inclusive as das atividades fardadas.

O que importa é que ele foi flagrado agora, fora do país, na comitiva de um autoproclamado caçador de bandidos e traficantes. Se alguém com o mesmo perfil tivesse sido preso em outras excursões, em circunstâncias semelhantes, o significado não seria o mesmo.

O sargento Rodrigues é um deboche a Bolsonaro e Sergio Moro. Bolsonaro e os filhos anunciam-se como caçadores de delinquentes, os pregadores religiosos e moralistas que estão sempre com Deus acima de tudo. Em nome da prioridade a essa caçada, Bolsonaro ataca professores, estudantes, artistas, ambientalistas. Todos são inimigos e perigosos. A universidade, segundo um ministro do seu governo, é o antro da libertinagem e da balbúrdia.

Atacar o crime é o discurso hipnótico de Bolsonaro. No momento em que o sargento viajava de avião com sua muamba, à sombra do poder governamental, polícias de todo o Brasil caçavam nas periferias jovens pobres e negros ajudantes de traficantes. Continuam caçando. Nessa caçada sem fim, policiais (a grande maioria de famílias pobres) matam e são mortos.

É o que a direita sempre fez, com a ajuda da Justiça que só vê criminosos nos subúrbios. Empurram a polícia para becos e vielas, para confrontos com ajudantes do tráfico que vão parar em masmorras, onde entram como amadores e saem como profissionais com a tatuagem de alguma facção.
Por isso a prisão do sargento não teria a mesma dimensão se tivesse acontecido em outra situação. O traficante e bolsonarista, que fazia arminha com os dedos nas redes sociais, tinha de ser pego numa viagem com Bolsonaro. O presidente que sofre o cerco de uma investigação sobre as relações da família com milicianos levava na viagem para o Japão um traficante.

Ninguém insinua que Bolsonaro possa ter ligação com o caso. O que se diz, sem insinuação, sem firulas, sem volteios, é que os sistemas de controle dos aviões do governo de Bolsonaro e de Moro foram incapazes de conter o embarque de um servidor que virou traficante.

Bolsonaro e Moro dizem ter poder para pegar bandidos poderosos e, se preciso for, como encena o chefe do ex-juiz, executá-los a tiros no chão. Mas não pegaram o traficante caroneiro de avião da FAB em viagem internacional do presidente da República e expuseram o Brasil a um vexame mundial. O traficante largou o pó no colo de Bolsonaro.

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