O poder e a indústria da morte: ações da Taurus disparam, no primeiro dia de governo de Bolsonaro. Por Joaquim de Carvalho

Bolsonaro, em 2017: garoto-propaganda da Taurus

Um retrato do governo de Jair Bolsonaro foi pintado neste primeiro dia útil de 2019.

As ações da Forjas Taurus, maior fabricante de armas no Brasil, disparou no pregão.

Até o horário do almoço, valiam 30% mais do que na última sexta-feira.

Nesse período, duas informações fizeram a alegria dos investidores.

A coluna Painel, da Folha, vazou a informação de que Sergio Moro prepararia medida para tornar mais fácil a posse de armas, e Jair Bolsonaro foi ao Twitter para anunciar que esta seria uma das primeiras medidas do seu governo.

A Taurus já tinha se valorizado muito em 2018 — foi a empresa com papéis negociados na Bovespa que mais subiram (180%).

Sem entrar no terreno da suspeita de que pode estar havendo manipulação desonesta do mercado, o fato é que os investidores já perceberam para onde os ventos soprarão no governo do capitão.

Arma é um negócio poderoso no mundo todo, e políticos de direita são especialmente (ou exclusivamente) apoiados por eles.

Facilitar o posse de armas é uma bandeira que une Bolsonaro e Donald Trump, por exemplo.

Nos Estados Unidos, em um dos mais recentes massacres ocasionados por pessoas com acesso fácil à arma, Trump chegou ao absurdo de dizer que os professores deveriam ser armados, para reagir a investidas desse tipo.

Sobre regras mais rígidas para compra e porte de armas, ele se manifestou contra.

Na sua campanha a presidente, Trump recebeu 30 milhões de dólares da National Rifle Association (NRA), a poderosa entidade de lobby que conseguiu, no governo atual, revogar uma lei que proibia pessoas com problemas mentais de comprarem armas.

Uma das patrocinadoras da NRA é a Taurus, que tem uma fábrica nos Estados Unidos.

Lá, quem compra uma arma da empresa ganha um ano de filiação grátis da associação.

Oficialmente, Bolsonaro não recebeu doação eleitoral Taurus (e de nenhuma outra empresa), já que o financiamento empresarial de campanhas eleitorais é proibido.

Mas há uma ligação do presidente brasileiro com setores que fazem parte do que se chama, na política, bancada da bala, esta financiada pelos fabricantes de armas, quando as doações de empresas eram permitidas.

O atual chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, por exemplo, recebeu, oficialmente, 50 mil reais para sua campanha a deputado em 2014.

Em novembro de 2017, quando Bolsonaro já viajava pelo Brasil em pré-campanha, o repórter Eduardo Reina fez um levantamento sobre quem estava bancando esses deslocamentos.

A reportagem, publicada no DCM, informou que, de 33 viagens do pré-candidato, dezesseis tinham sido patrocinadas por empresas ligadas a fabricantes de armas.

Uma das empresas que bancou  as viagens do parlamentar foi a Taurus, ainda em 2017.

Desde abril daquele ano, há um vídeo que circula pela internet em que Bolsonaro aparece como garoto propaganda da empresa.

O então deputado segura um arma e diz, se dirigindo à câmera:

“A Taurus tá lançando aqui um fuzil…”.

O representante da empresa completa:”…o nosso T4”.

E Bolsonaro, sorridente, reforça: ”…o nosso T4”.

O agora presidente pega da mesa uma pistola e afirma:

“É o que eu sempre digo, se eu chegar lá, você, cidadão de bem, no primeiro momento, vai ter isso em casa. E você, produtor rural, no que depender de mim, vai ter isso aqui também (ergue o fuzil)… cartão de visita pra invasor tem que ser cartucho 762”.

No arremate, informa:”Porque mais importante que a tua vida é a sua liberdade. Povo armado jamais será escravizado. Parabéns à Taurus”.

No Brasil, quando o faroeste começar a produzir vítimas, como nos Estados Unidos, ele poderá dizer que, já em 2017, tinha avisado que, mais importante que a vida, é a liberdade para comprar armas.

Os eleitores de Bolsonaro jamais poderão dizer que foram enganados.

Ele só está cumprindo o que prometeu.

E os acionistas da Taurus, ganhando dinheiro.

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Veja o vídeo:

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