O problema de um mundo sem indivíduos. Por Luis Felipe Miguel

Atualizado em 29 de janeiro de 2026 às 18:23
Rhea Seehorn, a atriz que interpreta a protagonista Carol em Pluribus. Foto: Divulgação

Muita gente boa tem colocado Pluribus nos cornos da lua. Não integro essa legião. Acho que o seriado parte de uma boa premissa e tem algumas boas ideias, mas também graves problemas no desenvolvimento da trama e na construção das personagens, sem falar de algumas falhas lógicas e incoerências internas, que são menores, laterais, mas que incomodam na hora de assistir.

Se alguém não sabe ainda do que se trata, vai aí um resumo: em algum momento do futuro próximo, a humanidade sofre uma mutação misteriosa, provavelmente induzida por extraterrestres. Passamos todos a partilhar de uma mente coletiva unificada. Acabam os conflitos e todos passamos a ter acesso a todo conhecimento já produzido. Acabam os pronomes “eu”, “ele”, “ela”; nós nos tornamos um “nós” universal. Acaba, na verdade, a necessidade de comunicação, já que há uma mente única que inclui a todos.

Ou melhor, quase todos. Apenas 13 pessoas, no planeta inteiro, são imunes a essa transformação, por razões desconhecidas – entre elas, obviamente, a protagonista, que até então era uma escritora estadunidense de romances de evasão.

A questão a que o seriado se dirige de forma mais evidente é a distopia de um mundo regido pela inteligência artificial. O criador de Pluribus, Vince Gilligan, é um fervoroso militante anti-IA. (Ele diz que teve a ideia antes da IA explodir, mas isso é irrelevante.)

A relação dos humanos sobreviventes (aqueles que não foram dissolvidos na grande consciência coletiva) com o “nós” que são todos os outros evoca, muitas vezes, a IA. O “nós” sabe tudo e responde a todas as perguntas de uma forma complacente, destinada a agradar. Pode mobilizar os indivíduos que o compõem para fingir que são os amigos, os confidentes, os pares românticos, os amantes dos humanos. A tentação, para eles, é se acomodar neste mundo de simulacros e abrir mão de relações reais – com todas as arestas e conflitos que elas geram.

O outro ponto que o seriado tematiza é a questão da individualidade e do conflito. Um mundo sem conflito deve ser um mundo sem indivíduos únicos, discerníveis um dos outros. Não é isso o que queremos: a harmonia universal? Por que, então, Pluribus se apresenta como uma distopia?

Existe uma tradição da esquerda, de crítica ao individualismo da sociedade capitalista, que leva a uma valorização da coletividade. Pluribus ajuda a colocar em questão esta tradição.

De maneira simplificada, podemos pensar a ideia de “individualismo” a partir de três caminhos diferentes.

Existe, em primeiro lugar, um individualismo epistemológico, que é a ideia de que a explicação de todos os fenômenos sociais reside nos indivíduos. Todos os fenômenos sociais têm que ser atrelados à ação dos indivíduos, às suas intenções, interesses e vontades. É uma forma de reducionismo explicativo: é preciso reduzir o nível da explicação, do agregado coletivo para o indivíduo. Os agregados não têm vontades ou interesses, não agem. Não posso dizer que “o capital busca aumentar a taxa de exploração” porque “o capital” é uma abstração; quem pode buscar alguma coisa são os capitalistas ou seus prepostos.

Isto é obviamente verdadeiro, em um sentido superficial, mas equivocado se pensamos com maior profundidade. Se queremos reduzir as explicações aos indivíduos, temos que ignorar que esses mesmos indivíduos são formados socialmente: eles são explicados pela sociedade, tanto quanto a sociedade é explicada por eles. Se dizemos que o “capital” não age, apenas o capitalista, temos que esquecer que, ao agir como capitalista, aquele indivíduo está encarnando o capital.

De maneira geral, perspectivas mais críticas tendem a ser mais sensíveis aos elementos estruturais do mundo social, não embarcando, portanto, no individualismo metodológico.

Temos também o uso de “individualismo” para significar o desprezo pelos direitos, pelos interesses ou pelo bem-estar das outras pessoas. Ser individualista, assim, é ser egoísta. Rejeitado, por bons motivos, pela maioria dos sistemas morais difundidos no mundo, o egoísmo é louvado por grande parte da extrema-direita — de forma quase direta, nas filosofias ultraliberais, como o chamado “objetivismo” de Ayn Rand, ou de maneira enviesada, na teologia da prosperidade.

Mas há ainda o que poderíamos chamar propriamente de “individualismo ético”: a ideia de que o objetivo da sociedade é promover o bem para os indivíduos que a compõem (e não o inverso). Opõe-se, assim, às perspectivas que hipostasiam um bem do Estado, da nação ou mesmo da “raça”, desligado dos indivíduos e deles exigindo sacrifícios. Para colocar nos termos de correntes importantes da filosofia liberal contemporânea, a sociedade bem ordenada é aquela que dá a cada um de seus integrantes as melhores condições para buscar sua própria concepção do bem.

É uma visão que não nega o valor da solidariedade, nem promove o egoísmo, mas que valoriza a expressão das diferenças individuais e reconhece que a autonomia de cada pessoa é algo a ser prezado.

Não há dúvida de que existem concepções à esquerda que se opõem a esta visão. É o caso, em primeiro lugar, de leituras que mistificam uma ordem social pré-moderna, em que as pessoas estariam supostamente imersas na comunidade, sem qualquer tensão. É praticamente uma recuperação, com valoração positiva, da leitura durkheimiana sobre sociedades “primitivas”, anteriores ao processo de individuação.

Mas é o caso também de visões que se querem ancoradas no marxismo, em particular aquelas que desprezam a democracia e os direitos como “frescuras liberais”. É uma equação simples: a coletividade é mais numerosa do que indivíduo, logo o indivíduo deve ser submeter a ela.

Lembro quando, muitos anos atrás, um grupo decidiu treinar capoeira todo final de semana, na frente do meu prédio, do final da tarde até de noite. Eu fui pedir que eles reduzissem o barulho porque, além de todas as outras atividades que atrapalhava, prejudicava o sono do meu filho, que então era um bebê. O chefe do grupo, por sinal um cubano radicado no Brasil, reagiu de forma agressiva, dizendo que eles eram um coletivo, portanto minha reclamação individual não merecia atenção.

Como defensor contumaz do direito ao silêncio já me deparei com esse tipo de resposta muitas vezes.

Eu creio, no entanto, que o individualismo ético, entendido adequadamente como a defesa do direito igual a todos à busca da realização pessoal, é parte essencial de qualquer projeto político emancipatório.

Sem o valor da igualdade, o individualismo pode justificar uma ordem social profundamente injusta, cujas vantagens fiquem concentradas em uns poucos, como nas vertentes do chamado “darwinismo social” e na ideologia da “meritocracia”, que dá uma roupagem moral à proteção da desigualdade e é hoje central no discurso da direita. Mas, ao lado da igualdade, o individualismo ético alimenta os projetos emancipatórios, da Idade Moderna em diante, incluindo o marxismo, que busca uma sociedade de pessoas voltadas à plena realização de suas capacidades, associadas livremente umas às outras, e o feminismo, que luta pelo reconhecimento pleno da individualidade da mulher e da legitimidade da busca, por ela, de um projeto de vida pessoal.

A sociedade comunista de Marx incorpora um sentido de individualismo ético; conforme observou Jon Elster, ela é o local em que se manifestam as múltiplas potencialidades dos homens e das mulheres, não da Humanidade em abstrato. Para além de qualquer distinção entre o Marx “jovem” e o Marx “maduro”, onde quer que se situe qualquer “corte epistemológico” em sua obra, há uma notável continuidade nos traços gerais dessa utopia.

É bem verdade que, em A ideologia alemã, Marx e Engels apontam para a superação do conflito entre indivíduo e coletividade, permitindo que cada um de nós realize da forma mais completa as próprias potencialidades e, ao realizá-las, entre em comunhão com os outros. Mas não oferecem muitas pistas de como isso seria possível.

É mais razoável pensar que algum grau de conflito é inerente à diversidade humana. E nosso horizonte, em vez de uma sociedade sem conflito, deva ser uma em que ele seja efeito da diversidade, não da dominação, e se expresse sem violência.

A destruição das individualidades, pelos mecanismos de assujeitamento, de cooptação e de normalização, deve ser incluída entre os males do capitalismo – e entre aqueles que se manifestam de forma mais acentuada em sua fase atual. Pluribus funciona, também, como uma ilustração disto.

Publicado originalmente no Substack do autor

Luís Felipe Miguel
Professor de ciência política da Universidade de Brasília (UnB) e coordenador do Demodê - Grupo de Pesquisa sobre Democracia e Desigualdades.