O procurador e os ornitorrincos. Por Moisés Mendes

subprocurador-geral da República Domingos Sávio Dresch da Silveira (Imagem: reprodução)

Esta frase está desde ontem na capa dos jornais online: Indulto de Natal de Bolsonaro é um ornitorrinco jurídico.

É do subprocurador-geral da República Domingos Sávio Dresch da Silveira, sobre o indulto especial de Bolsonaro para policiais condenados por assassinatos. Domingos disse:

“É a primeira vez que vejo num decreto de indulto a vinculação da profissão de quem praticou o ato com a prática do crime. O presidente confunde a ideia de clemência com o indulto individual, que é o instrumento da graça. Ele criou um ornitorrinco jurídico ao confundir o indulto, que é genérico, com a graça. Ele criou um monstrengo”.

Quem conhece Domingos, não só no Rio Grande do Sul, pela sua trajetória em defesa das liberdades, dos direitos humanos e do meio ambiente, não se surpreende. Além de incisivo e destemido, Domingos é inventivo.

Só que precisamos de mais Domingos. Não para fazer declarações burocráticas e formais, mas para produzir opiniões que incomodem o poder construído (e já alquebrado) desde antes do golpe de agosto de 2016.

Se tivermos mais Domingos falando para todos, e não só para os colegas e amigos, Bolsonaro e Sergio Moro terão dificuldades para aparelhar o Estado.

O silêncio de servidores públicos de todas as áreas é cúmplice do bolsonarismo. Quem está quieto para não se incomodar não precisa ficar dando desculpas, porque já escolheu o lado.

Precisamos e merecemos mais destemor de quem tem a prerrogativa e a obrigação de defender interesses e bens públicos. Não como graça, mas como direito e dever.

Vamos lá, corram riscos, como correm os professores. Vamos parar de frescura e enfrentar também dentro das instituições os desatinos do bolsonarismo e de todos os ornitorrincos da extrema direita em 2020.