O projeto de Bolsonaro é um delírio. Por Moisés Mendes

Bolsonaro, Heleno e seus amigos militares. Foto: Reprodução/Blog do Moisés Mendes

Publicado originalmente no blog do autor

Está consagrada, até porque se repete todos os dias, a previsão de que o mundo será ainda mais desigual depois da pandemia.

Mas essa pandemia criou, logo no começo, a ilusão de que era uma peste de ricos e da classe média, porque eles voltavam infectados das viagens ao Exterior.

Mas os ricos contagiaram os pobres. Logo depois de se alastrar, a peste passou a matar mais suburbanos, negros e índios, porque esses são os mais desprotegidos e sem os melhores hospitais e medicamentos.

Nos Estados Unidos, a matança é a maior de todo o mundo exatamente pela desassistência da saúde, porque lá não há serviço universal, como é o SUS no Brasil.

Lá, o povo tem que pagar para não morrer. A nação mais rica do mundo vai selecionar os sobreviventes, sem mediações do Estado, como acontece numa selva. Que sobrevivam os mais aptos, porque assim funciona uma pandemia.

E aí entra o segundo aspecto dessa realidade. Para muitos, a pandemia seleciona quem deve viver ao escolher não só os mais ricos, mas os mais fortes.

É onde aparece a teoria bolsonariana. O efeito seletivo da peste pouparia as pessoas com vigor físico, com histórico de atleta e com outras virtudes que as diferenciam do resto.

O resto é o que vai sucumbir ao coronavírus. O que Bolsonaro quer dizer com isso, até porque ele, o filho, a mulher e muitos ao redor dele já foram infectados?

Bolsonaro está sugerindo que ele e os que estão por perto, e que pertenceriam às mesmas castas no poder, porque foram escolhidos por ele, fazem parte de um grupo de seres superiores.

Não são de famílias tradicionais, não têm ‘berço’, mas são geneticamente fortes. Bolsonaro se considera um dos escolhidos para sobreviver, não só porque se considera fisicamente privilegiado, mas porque seria um humano superior.

Bolsonaro foi o único a aparecer sem máscara, numa fileira de autoridades no 7 de setembro em Brasília, porque os outros ao seu lado podem até se considerar acima da média, mas têm medo. Ele era o único sem medo.

A mulher de Bolsonaro estava com a proteção no rosto. Hamilton Mourão, Davi Alcolumbre e todos os ministros também estavam. Todo o pessoal da guarda, como se vê na foto, estava protegido com máscaras brancas.

Mas ele não. Ele é a expressão da superioridade, dos que não serão atingidos por uma doença que tem preferência pelos fracos, os doentes e os velhos. É o que ele repete.

Bolsonaro se consagra, em meio à peste, como o supremacista que já atacou negros e índios, como o macho branco, o hetero perfeito.

Ele está convencido de que foi o escolhido para presidir o Brasil e participar agora de um processo de seleção da espécie, cujo resultado será uma eugenia social que nem Hitler imaginaria.

O desprezo por um projeto de combate à pandemia, o deboche com doentes e mortes e a conspiração contra a vacina seriam parte da estratégia dessa ambição.

Bolsonaro ambiciona a condição de exemplo acima de tudo e de todos. Ele pode estar pensando em se transformar no grande macho brasileiro, no modelo de homem invencível.

O Brasil teve e tem Aleijadinho, Machado de Assis, Villa Lobos, Pelé, Niemeyer, Tom Jobim, Chico Buarque, Ayrton Senna. E agora tem Bolsonaro. Este é o delírio de Bolsonaro, enquanto destrói as estruturas de Estado e ataca as instituições.

Se um marciano descesse hoje na terra, Bolsonaro gostaria que viessem procurá-lo como modelo da raça e como o déspota perfeito.

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