O projeto sionista do Grande Israel. Por Aldo Fornazieri

Atualizado em 6 de abril de 2026 às 8:47
O primeiro-ministro de Israel Benjamin Netanyahu. Foto: reprodução

Por Aldo Fornazieri

Especialistas e analistas definem a guerra de Israel e dos Estados Unidos contra o Irã como uma “guerra por escolha”. Quer dizer: ela foi motivada apenas para atender a objetivos políticos e geopolíticos dos dois Estados agressores. Não é uma guerra necessária, de autodefesa, nem mesmo uma guerra preventiva para evitar algum risco de ameaça que o Irã pudesse representar para Israel e os Estados Unidos.

Israel e Estados Unidos decidiram fazer a guerra pela guerra. As guerras por escolha são consideradas criminosas pelo Direito Internacional. A Carta da ONU e o Direito Internacional proíbem o uso da força contra a integridade territorial e a independência política de qualquer Estado. A guerra contra o Irã não foi autorizada pelo Conselho de Segurança da ONU e não pode buscar qualquer legitimidade no princípio da defesa própria. Trump passou por cima até mesmo do Congresso americano, pois a Constituição prevê que as guerras precisam de sua autorização.

Além de cometerem o crime de iniciar uma guerra ilegal, os governos dos Estados Unidos e de Israel estão cometendo crimes de guerra aos borbotões, com ataques contra instalações civis, infraestrutura e instalações nucleares, assassinando líderes e crianças do Irã. É preciso desenvolver uma mobilização internacional para que Trump, Netanyahu e seus respectivos comandos de guerra sejam julgados pelos crimes que vêm cometendo.

Dominado por radicais religiosos, o governo de Israel vem construindo o Estado como uma máquina de guerra para atacar vários grupos e povos na região. Esse Estado sionista já fez guerras contra o Egito e a Síria, ataca o Líbano com frequência, ocupa terras dos palestinos na Cisjordânia, cometeu genocídio e destruiu Gaza e, agora, ataca o Irã injustificadamente.

O projeto da “Grande Israel”. Foto: reprodução

A máquina de guerra de Israel, que conta com bombas atômicas, atende a objetivos expansionistas que utilizam narrativas míticas religiosas antigas para cometer crimes impunemente. Eles tomam por base uma narrativa literária mítica do Livro do Gênesis 15:18-21, onde, supostamente, o Senhor teria dito o seguinte a Abraão: “Aos seus descendentes darei esta terra, desde o ribeiro do Egito até o grande rio, o Eufrates. A terra dos queneus, dos quenezeus, dos cadmoneus, dos hititas, dos ferezeus, dos refains, dos amorreus, dos cananeus, dos girgaseus e dos jebuseus”.

Não há evidências históricas e arqueológicas da existência de Abraão, nem mesmo de alguns desses povos arrolados. Como já se afirmou em outro artigo, grande parte do que está narrado no Antigo Testamento faz parte de narrativas literárias e míticas, de acontecimentos que nunca existiram, o que constitui a “história inventada de Israel antigo”.

A história real foi muito mais prosaica. De modo geral, o território de Israel antigo era pequeno, bem menor do que os relatos bíblicos lhe atribuem. Israel antigo nunca foi um grande reino, tendo poderio bem inferior ao dos egípcios, assírios e babilônios, com os quais mantinha alianças de subordinação. O período de maior auge, também de maior autonomia, foi no reinado de Salomão — um reino antigo unificado abrangendo Israel e Judá, que depois se dividiram. Mesmo o templo de Salomão, segundo a arqueologia, não tinha a grandeza e o esplendor descritos na Bíblia.

Da narrativa do Gênesis, os radicais sionistas de extrema direita contemporâneos construíram o projeto político e ideológico do “Grande Israel” (Eretz Yisrael Hashlema – Terra Inteira de Israel), que, na história, nunca existiu. Só existiu na fantasia das narrativas literárias e míticas dos escribas da Bíblia. Acreditar na narrativa do Gênesis equivale a acreditar que os deuses Atena, Hera, Posêidon, Hefesto e Hermes apoiaram os gregos contra Troia e que Afrodite, Ártemis, Apolo e Ares apoiaram os troianos contra os gregos.

Recentemente, Netanyahu declarou que concorda de forma absoluta com o projeto do “Grande Israel”. O sionismo foi criado no século XIX por Theodor Herzl para combater o antissemitismo na Europa. Mas, no século XX, sofreu uma grande revisão proposta por Zeev Jabotinsky, que defendeu a criação de grupos armados, um “muro de ferro” de defesa, sustentando a tese de que os árabes deveriam ser contidos pela força das armas.

O Likud, partido de Netanyahu, é herdeiro desse sionismo belicista e expansionista. A imprensa costuma veicular a ideia de que Netanyahu faz guerras para se manter no poder. Essa é apenas uma verdade parcial. Ele e o Likud são aliados de partidos de extrema direita radicais como o Shas, o Partido Unido da Torá e o Noam, patrocinadores da guerra, da rapinagem de terras na Cisjordânia e do extermínio de palestinos.

Embora não queiram que os membros religiosos desses partidos sirvam no Exército, eles apoiam a continuidade ativa da guerra contra o Irã, até que suas capacidades sejam destruídas. Os mais alinhados com o militarismo expansionista são os partidos nacionalistas religiosos como o Otzma Yehudit, de Itamar Ben-Gvir, e o Sionista Religioso, de Bezalel Smotrich. Defendem o estabelecimento imediato da soberania de Israel sobre a Cisjordânia.

O projeto do Grande Israel prevê abarcar partes do Egito, da Jordânia, da Síria, do Líbano, do Iraque e os territórios palestinos. O projeto adota a estratégia de guerra permanente, de ocupação territorial e de assentamentos nos territórios conquistados. Os líderes ocidentais e a mídia se calam acerca desse caráter belicoso e expansionista do sionismo de Israel.

Boa parte do dinheiro que financia o expansionismo sionista vem dos Estados Unidos. Esse dinheiro financia armas que provocam ocupações, a implantação de assentamentos, assassinatos de resistentes, deslocamento de famílias e a destruição de aldeias. Também dota o Exército com armas sofisticadas, tecnologia de ponta, artefatos nucleares e o Domo de Ferro. A militarização e a fascistização da sociedade israelense são crescentes. Os setores democráticos perdem espaço, e as vitórias dos partidos de extrema direita são recorrentes.

O Estado belicista de Israel não quer a paz. Quer invadir, deslocar, matar e destruir. Os governos dos EUA são subservientes a esses desígnios. Biden validou o genocídio em Gaza. Trump tornou-se sócio, na prática, dos crimes de guerra de Netanyahu.

Agora, o sionismo quer criminalizar todas as críticas e denúncias contra Israel. Esconde-se atrás do antissemitismo para difundir um sionismo criminoso. Muitos israelenses de hoje assumiram práticas dos algozes de judeus no passado. Esse círculo representa a perpetuação da tragédia da humanidade. Somente a paz e a coexistência pacífica entre povos, etnias e religiões poderão quebrá-lo.

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