O PT, a militância e a sociedade. Por Aldo Fornazieri

Ex-presidente Lula no café da manhã com Deputados Foto: Ricardo Stuckert

Publicado originalmente no jornal GGN

POR ALDO FORNAZIERI, professor da Escola de Sociologia e Política (FESPSP)

O artigo que publiquei neste espaço na semana passada (Destino de Lula: abandono e solidão), teve duas respostas diretas: uma de Valter Pomar, ex-membro da Executiva Nacional do PT e outro de Gleisi Hoffmann, presidente do partido. Assim, o artigo atingiu um de seus objetivos que consistia em provocar desconforto na direção do PT. O longo artigo de Pomar contesta ponto por ponto o meu artigo e é uma contestação que, de modo geral, se situa no plano político, o que é salutar para o debate progressista e democrático.

Em que pese as  críticas, há vários elementos de avaliação comum entre o que escreve Pomar e o que escrevi em artigos. Por exemplo: a avaliação de que o PT saiu derrotado das eleições, mas não destruído. Poderia fazer retificações no meu artigo, se fosse reescrito, a partir de algumas críticas de Pomar. Mas em outros pontos a divergência se mantém. Gostaria até mesmo que Pomar tivesse razão no seguinte ponto: que Lula não foi abandonado no passado, no presente e não será no futuro. Uma coisa, no entanto são as intenções e as  resoluções formais dos agentes políticos, outra coisa é a realidade. Volto a esse ponto logo adiante, onde pretendo indicar algumas divergências com Pomar.

Quanto ao artigo da Gleisi Hoffmann, ele foi escrito motivado pelo despeito, um impulso que é mau conselheiro em se tratando da atividade política. O artigo começa afirmando que ofendi “gratuitamente o PT, os nossos dirigentes e a nossa militância”. O meu artigo não ofende absolutamente ninguém. Trata-se de uma avaliação política que é comungada com milhares de petistas e de ativistas sociais. Só escrevi o artigo sobre o assunto Lula depois de ser instado por vários militantes e eleitores do PT.

Dizer que o meu artigo ofende reflete uma postura arrogante de quem não quer receber e aceitar críticas. O PT, como qualquer outro partido, assim como um parlamentar ou um governante, tem o dever de explicar-se, não só perante a militância, mas também perante a sociedade. Todos recebem dinheiro público, via o fundo partidário, o fundo eleitoral e através dos salários dos parlamentares e dos governantes. Assim, é concernente aos princípios da democracia, da república, da transparência e da moralidade pública que os partidos e os eleitos prestem esclarecimentos à sociedade de seus atos e de suas políticas. Qualquer cidadão, seja ele de direita, de centro ou de esquerda tem o direito de cobrar e criticar publicamente qualquer partido e qualquer político eleito.

Partidos e os políticos que não se explicam, que não esclarecem, que não dialogam estão destinados a perder espaço na sociedade. Vivemos num mundo  em que as informações e as comunicações giram a uma velocidade quase instantânea. Não se pode lidar com esse mundo com categorias da era da Revolução Industrial ou com um modo de ser analógico. Quanto mais se intensifica e se complexifica a informação e comunicação, mais se exige transparência, diálogo, postura ética. O contrário disso são as fake news. Um dos aspectos centrais dos embates do mundo de hoje é essa polaridade: ética e transparência versus fake news. Aqui é preciso escolher.

Um partido político democrático não pode mais se guiar pelos princípios dos arcana imperii, do poder oculto, misterioso. Precisa ser aberto, transparente, acessível, interativo, dialógico. O PT vem falhando nestes aspectos, tanto na comunicação com a sociedade, quanto com a militância. No que diz respeito à campanha Lula Livre, muitos militantes e ativistas não sabem o que acontece, sequer sabem que ela existe. Mesmo durante a campanha eleitoral, a militância se ressentiu com a precariedade da comunicação.

Além de existir este grave problema de comunicação, existem também erros políticos, no que diz respeito à campanha Lula Livre. Uma das condições fundamentais do êxito político diz respeito a como saber lidar com o momento, com a ocasião, aproveitando-o. Existiram duas ocasiões, de certa forma contínuas, que eram propícias para exercer o máximo de pressão pela liberdade de Lula: a) no contexto da condenação e da prisão; b) no contexto da sua candidatura à presidência da República. Nesses momentos havia uma sensibilidade social bastante ampla em favor de Lula, em favor de sua candidatura e contra a sua condenação e prisão. Nenhuma mobilização de envergadura, configurada numa campanha sistemática, foi lançada nesses momentos.

Claro que ocorreram atos, como o de Porto Alegre, na véspera da condenação pelo TRF4 ou o do Sindicato dos Metalúrgicos no contexto da prisão de Lula. Depois foram feitos atos menores e o acampamento da vigília e da solidariedade em Curitiba. Mas nada disso seria capaz de criar força suficiente para promover uma pressão para uma virada nos tribunais e nos meios políticos em favor de Lula.

Em política o êxito depende também do respeito, da reputação e do temor. Respeito e reputação se conquistam pelo exemplo da conduta, pela eficiência no agir  e pala realização de feitos significativos. O temor se conquista pela força que um agente dispõe e do saber usá-la. No Brasil, país de capitalismo predatório e de elites predadoras e golpistas, um partido progressista e de esquerda se faz respeitar e temer muito mais pela força do que por outros predicados. É esta força organizada e mobilizada que o PT ficou a dever. O fato é que aquelas ocasiões passaram, com fracas mobilizações e, agora, há uma conjuntura muito mais difícil para se mobilizar em favor de Lula Livre. Um novo momento favorável se colocaria na possibilidade de um fracasso do governo Bolsonaro.

Pomar concorda com o meu artigo quando se argumenta que para mobilizar é necessário “direção, comando e coragem”. Mas acrescenta que é preciso que haja cultura de mobilização e disposição de luta em setores sociais. Ele avalia que falta isso. Mas por que falta? Por culpa dos setores sociais, das massas? Afirmo que não. A responsabilidade de gerar cultura de mobilização e disposição de luta é dos partidos, dos sindicatos e dos movimentos sociais. Nas décadas de 1980-90 o PT mobilizava. O fato é que nos treze anos de governo do PT, o partido não se mobilizou e se afastou das bases, das periferias. Os sindicatos e alguns movimentos sociais foram viver à sombra do poder. O que explica, por exemplo, que no processo do impeachment que resultou no golpe somente no final de 2015 foi convocada uma manifestação em defesa da democracia e do governo? Já haviam ocorrido várias manifestações, com milhares de pessoas, pedindo a derrubada de Dilma.

A questão de fundo da crítica que o Pomar me dirige é a de que o PT é vítima do golpe etc., etc., etc., e que, por isso, não pode ser culpado. Sim, é vítima, mas isto não exclui sua responsabilidade. Por que só se mobilizou tardiamente em 2015? Por que na véspera da votação do impeachment o partido e o governo avaliavam que venceriam a votação? Por que ministros do governo saíram do ministério três dias antes da votação e foram votar contra a Dilma? O PT e o governo não perceberam que tomavam café, almoçavam e jantavam com os inimigos? E o que dizer dos ministros do STF cuja maioria foi constituída pelos governos petistas? O fato é que o PT tornou-se um partido de gabinetes e de mandatos: perdeu as ruas, perdeu as bases, perdeu a organização e perdeu a mobilização. Tudo isto, em boa medida, a resolução do partido aprovada no final de semana reconhece. E isto é bom se se tornar efetivo.

Cabe perguntar ainda: não foi um erro formar a chapa com Michel Temer? Não foi erro, em 2010, se aliar a Sérgio Cabral no Rio e apoiar Roseana Sarney no Maranhão contra Flávio Dino? Quem nomeou os Procuradores Gerais da República que se voltaram contra o PT? Quem nomeou os comandantes militares, os chefes da Abin, os diretores da PF? O PT é vítima sim dos golpistas, mas é vítima também de seus próprios erros.

Voltando à crítica da Gleisi, ela me intima a sair do gabinete. O problema é que não tenho gabinete e, pelo que consta, quem tem gabinete e verba de gabinete é ela. Ela questiona minha militância sem saber como e onde atuo. Isto não é bom, pois poderia questionar vários fatos de sua militância e de sua atuação política. Poderia questionar, por exemplo, a nota estapafúrdia que ela emitiu em defesa do mandato do notório golpista Aécio Neves. Mas em nome da militância aguerrida e da combatividade da Gleisi não questiono mais nada na esperança de que ela não questione indevidamente a militância de ninguém. Ademais, não preciso ir a Curitiba para defender Lula.

Por fim, Pomar me acusa de ser distópico.  Não sou distópico, mas também não sou utópico. As utopias têm se revelado inefetivas e impotentes. É melhor ser realista. É melhor seguir a recomendação de Antônio Gramsci: otimismo da vontade e pessimismo da razão. Qualquer análise racional do Brasil e do mundo não enseja otimismo. Não podemos esquecer a dimensão trágica do mundo, pois isto conduz a erros graves. É legítimo fazer promessas, mas elas precisam ser precedidas das duras e necessárias advertências acerca das precariedades do mundo. Desde a juventude nunca deixei de exercer uma atividade militante. Não tenho interesse em cargos ou poder. Movido por uma consciência estóica, milito por dever, um dever que se vincula aos fins de um mundo mais igual, mais justo, mais humanizado e mais solidário.

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