O que a periferia está mostrando com os rolês em SP

É uma questão social, não policial
É uma questão social, não policial

A questão dos rolezinhos não é jurídica e não é policial: é social.

Isto tem que ser entendido antes de tentar resolvê-la pelos meios errados.

O passo essencial, nisso, é combater a desigualdade social que dividiu a cidade entre o centro e a periferia e, como notaram muitos, promoveu na prática um apartheid em São Paulo.

O quadro em que os rolezinhos surgiram, prosperaram e provocaram medo na classe média é um depoimento notável de quanto as últimas administrações de São Paulo contribuíram, ou pela incompetência ou pela omissão, para a iniquidade.

Igualdade social é algo que simplesmente não existiu nem no vocabulário e nem na prática dos políticos que dominaram de um jeito ou de outro São Paulo nos anos recentes.

Serra é apenas o exemplo mais marcante desse tipo de administrador que fez São Paulo ser o que é. Mas não é o único.

Os rolezinhos, e o medo que têm desencadeado, mostram quanto o prefeito Haddad acertou em tentar – sem sucesso, lamentavelmente – aumentar o imposto dos favorecidos e diminuir o da periferia, pelo IPTU.

O fracasso de Haddad em fazer algo que contribuísse para reduzir a desigualdade é revelador de como são poderosas as forças que empurram para a direção contrária – exatamente a que leva ao apartheid.

Fora a mídia, sempre na defesa dos privilegiados, dois nomes se destacaram no desmonte dos planos de Haddad.

Um foi o presidente da Fiesp, Paulo Scaf, que viu no episódio uma maneira de tentar ganhar votos da classe média em sua aspiração de se eleger governador de São Paulo, em 2014.

O outro foi Joaquim Barbosa, o ubíquo JB, o homem que está – infelizmente, desgraçadamente – em todas. JB negou um recurso da prefeitura para que o novo IPTU vigorasse.

O caso de São Paulo é uma parábola do Brasil.

Você tem uma área rica, ou perto disso, e quer preservá-la? Reduza a distância social que a separa da área pobre.

Na Venezuela, o antigo regime começou a cair, no final dos anos 1980, quando os desvalidos dos morros desceram para a área chique de Caracas, no chamado Caracazo.

Eles estavam revoltados com o aumento dos preços do transporte público. (Alguma lembrança das Jornadas de Junho, por acaso?)

Na repressão, muitos pobres morreram – bem como, simbolicamente, um regime submisso aos interesses americanos e tocado por ricos e para os ricos.

Chávez é filho do Caracazo.

Os privilegiados brasileiros confiam na docilidade do povo, como se pôde ver na forma como o novo IPTU de São Paulo foi pisoteado.

Mas, mesmo um povo cordial como o brasileiro, não pode ser testado infinitamente em sua paciência ancestral.

O bom senso – não vou nem falar em generosidade – recomenda que se reparta melhor o bolo.

Já.

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