O que é ser normal? As lições de Nise da Silveira, que o presidente do Banco do Brasil não conhece. Por Joaquim de Carvalho

Nise da Silveira e um de seus gatos

Em 1998, estive na casa da Nise da Silveira, no Rio de Janeiro, para entrevistá-la. Era um evento em sua homenagem e a encontrei em uma cadeira de rodas, já bem velhinha, com mais de 90 anos de idade. Rodeada de gatos e de gente importante, ela parecia uma pessoa bastante alegre.

— Você é uma boa pessoa — me disse ela.

— Por quê?

— Porque os gatos gostam de você e gato só gosta de gente boa — disse ela, para dar uma boa risada em seguida.

Pensei em Nise da Silveira quando li a mensagem por escrito que o presidente do Banco do Brasil enviou à BBC para explicar o veto à publicidade da instituição que mostrava gente real, o brasileiro que se encontra no Parque Ibirapuera, na Paulista, na praia.

Disse Rubens Novaes:

“Durante décadas, a esquerda brasileira deflagrou uma guerra cultural tentando confrontar pobres e ricos, negros e brancos, mulheres e homens, homo e heterossexuais etc, etc. O ’empoderamento’ de minorias era o instrumento acionado em diversas manifestações culturais: novelas, filmes, exposições de arte etc., onde se procurava caracterizar o cidadão ‘normal’ como a exceção e a exceção como regra”.

Uau!

O cidadão de bem, economista formado pela Universidade de Chicago, se atreveu a discorrer sobre o que seria um ser humano normal.

É muita pretensão, mas agrada o chefe, um homem que já manifestou seu desprezo pelas minorias, ao dizer que governaria para a maioria, e as minorias, se quisessem continuar existindo, teriam que “se curvar”.

“As leis devem existir para defender as maiorias, as minorias se adequam ou simplesmente desaparecem”, disse ele, em um evento no qual foi ovacionado, ao falar: “Somos um país cristão, Deus acima de tudo. Não existe essa historinha de estado laico, não. É um estado cristão”.

Seria este o cidadão normal?

Nise da Silveira foi uma gigante em seu tempo e isso lhe custou a liberdade, quando a polícia política de Getúlio Vargas a encarcerou a partir da denúncia de uma enfermeira sobre suas “tendências”comunistas.

Ficou dezoito mesas presa, quando conheceu Graciliano Ramos.

“Lamentei ver a minha conterrânea fora do mundo, longe da profissão, do hospital, dos seus queridos loucos. Sabia-se culta e boa. Rachel de Queiroz me afirmara a grandeza moral daquela pessoinha tímida, sempre a esquivar-se, a reduzir-se, como a escusar-se a tomar espaço”, escreveu ele.

Nise revolucionou o tratamento psiquiátrico, ao abolir o eletrochoque e a surra como métodos de tratamento. Foi hostilizada e transferida para outro setor do hospital psiquiátrico Pedro II.

Na terapia ocupacional, decidiu entregar aos internos pincel e tela, para que se expressassem como quisessem.

O resultado foram obras de arte que deram origem ao Museu do Inconsciente, prestigiado por  Carl Gustav Jung, um dos maiores psiquiatras de todos os tempos.

Rubens Novaes, o do Banco do Brasil, já dirigiu o BNDES e o Sebrae, além de dar aula, é a expressão de um país que ficou intelectualmente menor, muito menor. Empoderou as pessoas que se consideram “normais”.

Mas, mesmo nesse espaço pequeno que nos resta, é impossível apagar a história de gigantes como Nise da Silveira, que entre outras coisas disse:

“Não se curem além da conta. Gente curada demais é gente chata. Todo mundo tem um pouco de loucura. Vou lhes fazer um pedido: Vivam a imaginação, pois ela é a nossa realidade mais profunda. Felizmente, eu nunca convivi com pessoas ajuizadas”.

É só olhar para Rubens Novaes e seu chefe, para entender o significado das palavras da doutora Nise da Silveira:

“A contaminação psíquica é pior que piolho. Vai passando de uma cabeça para outra, numa rapidez incrível. E, como você sabe, todo mundo já pegou piolho.”

Ou esta, que pode ser usada como resposta ao presidente do Banco do Brasil:

“Desprezo as pessoas que se julgam superiores aos animais. Os animais tem a sabedoria da natureza. Eu gostaria de ser como o gato: quando não se quer saber de uma pessoa, levanta a cauda e sai. Não tem papo.”

Cartaz encontrado na internet

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