
Roteiro de Joana Borges, historiadora e dirigente do Movimento Brasil Popular, sobre o ataque dos Estados Unidos à Venezuela
Existe um aspecto importante no tratamento dos recentes ataques dos Estados Unidos à Venezuela, especialmente aqui no Brasil: a redução da luta geopolítica à disputa por petróleo.
Com essa abordagem, as aspirações políticas e estratégicas dos Estados Unidos, que movem ações dessa magnitude, desaparecem do debate político.
A disputa pelo petróleo é central, mas não explica tudo. Invadir um país, sequestrar seu presidente e sua esposa, ameaçar julgá-lo em cortes estadunidenses e iniciar chantagens diplomáticas envolve muito mais do que interesse econômico, que apresento a seguir:
Ponto 1 – Retomada do domínio regional
O primeiro elemento é a tentativa dos EUA de retomar seu domínio na América Latina.
Isso acontece em um momento em que vários países da região são governados por forças de direita e extrema direita, muitas delas alinhadas publicamente aos Estados Unidos e até cedendo territórios para bases militares.
Atacar a Venezuela é também enviar um recado político ao continente: reafirmar quem manda e quem define os limites da soberania regional.
Ponto 2 – Desestabilização interna sem ocupação direta
O segundo elemento é a fragilização interna da Venezuela.
Quase 90% da economia venezuelana está direta ou indiretamente ligada à exportação de petróleo. Ao atacar esse eixo, os EUA provocam instabilidade econômica, social e política, sem precisar ocupar militarmente o país neste momento.
É uma estratégia para desestruturar o país mais militarmente preparado do continente, criando caos interno, desgaste do governo e tensão social.

Ponto 3 – Derrota ideológica e enfraquecimento da esquerda
O terceiro elemento é causar uma derrota ideológica na região.
A Venezuela é uma referência simbólica e política para governos populares e forças de esquerda na América Latina. Fragilizá-la é também enfraquecer a retaguarda ideológica desses projetos, desmoralizar experiências soberanas e intimidar outros países que tentem seguir caminhos independentes.
Ponto 4 – Disputa global e afirmação dos EUA frente à China
O quarto elemento é a disputa geopolítica global, especialmente com a China.
Grande parte do petróleo venezuelano é direcionada ao mercado chinês. Intervir na Venezuela é também interferir diretamente nessa relação estratégica, reforçando a tentativa dos EUA de manter sua liderança econômica e política no cenário internacional.
Ou seja, não é só sobre petróleo, é sobre quem controla o petróleo e o que isso significa politicamente no mundo.
Fechamento
Portanto, para além de identificar a disputa pelo controle do petróleo, é fundamental apontar os objetivos políticos e a disputa pelo poder.
Reduzir tudo à frase “é o petróleo” é um erro de análise. A disputa é pelo petróleo e pelo poder que ele proporciona.
Se queremos travar uma batalha de ideias na sociedade, precisamos mostrar que não se trata apenas de recursos naturais, mas de soberania, domínio regional, disputa ideológica e hegemonia global.