
Pernambuco registrou 84 incidentes envolvendo tubarões desde o início do monitoramento oficial, sendo 70 deles na Grande Recife. O tema voltou ao centro das atenções após dois ataques em cerca de 24 horas, envolvendo um menino de 11 anos na Praia de Piedade e uma jovem de 19 anos na Praia de Boa Viagem.
Especialistas ouvidos pelo jornal O Globo apontam que o aumento desses casos está ligado às mudanças ambientais provocadas pela construção do Porto de Suape a partir da década de 1990. A redução das áreas de alimentação e reprodução teria levado parte desses animais a migrar para a região metropolitana do Recife.
Especialistas apontam que o ano de 1992 registrou um pico de 14 ataques, coincidindo com o período das transformações ambientais na área.
O Comitê Estadual de Monitoramento de Incidentes com Tubarões informou que o ataque ao menino de 11 anos apresenta indícios de envolvimento de um tubarão-cabeça-chata. Já a jovem de 19 anos foi mordida por um tubarão-tigre. Ambas as espécies estão entre as mais frequentemente associadas aos acidentes registrados no litoral pernambucano.
Muitos desses casos são resultado da chamada “mordida investigatória”, quando o animal tenta identificar se o alvo faz parte de sua cadeia alimentar. As águas turvas da região dificultam a visualização tanto para os tubarões quanto para os banhistas. Em Boa Viagem, a proximidade entre um canal submarino e a faixa de areia aumenta as chances de encontros entre pessoas e animais.

Outro fator apontado pelos pesquisadores envolve as fêmeas de tubarão-cabeça-chata durante o período de gestação. Próximas ao parto, elas costumam permanecer em áreas rasas perto da costa, aumentando a possibilidade de contato com banhistas. Nessas situações, reações defensivas podem provocar ferimentos graves.
A jovem atacada em Boa Viagem sofreu amputação de uma das pernas e permanece internada em estado grave. O menino de 11 anos também precisou amputar uma das pernas após avaliação médica indicar impossibilidade de revascularização. Ambos seguem internados no Hospital da Restauração, no Recife.
A área considerada de maior risco para incidentes com tubarões se estende por cerca de 33 quilômetros entre o Cabo de Santo Agostinho e Olinda. Parte desse trecho está sob decreto estadual que alerta para o risco de ataques, e há áreas específicas onde o banho de mar é proibido.
O último caso registrado em Piedade havia ocorrido em março de 2023, quando dois adolescentes sofreram amputações após ataques em dias consecutivos.