O que faziam dois negros no meio dos torcedores racistas do Grêmio?

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Um detalhe chamou a atenção nas filmagens das agressões racistas contra o goleiro Aranha, do Santos, na vitória contra o Grêmio pela Copa do Brasil, nesta quinta-feira (28). No grupo de torcedores que entoavam o grito de “macaco” havia dois negros.

O próprio goleiro citou este fato, durante uma entrevista coletiva. “Ontem tinha dois negros no meio lá me xingando também e eu ouvindo tudo aqui. Eu falei, pô, será que são negros só por fora? E por dentro? Sabe, o cara tem que ter consciência do que ele faz.”

É mesmo difícil tentar compreender o que leva dois negros a lançar ofensas racistas contra outro negro. Negação da própria identidade? “Efeito matilha” provocado pela empolgação dos companheiros de torcida? Ignorância?

Vendo os torcedores gremistas lembrei dos meus tempos de garoto. Havia um moleque endiabrado e negro que chamava outros dois amigos de “macacos”. Seu tom de pele era menos escuro do que o dos seus alvos, negros retintos, mas os seus outros traços eram iguais aos dos ofendidos. Por ser um pouquinho mais claro, se achava em um patamar superior aos demais. Felizmente a fanfarronice dele sumiu assim que passou a adolescência.

Não foi o único caso em que presenciei negros discriminando outros negros. Havia uns pardos de pele clara e cabelos crespos que atormentavam outro negro da turma. Eles cantavam a música Homeless, da série americana Raízes, na época transmitida pelo SBT, e simulavam açoites de chicote contra o menino, com direito a imitações dos gemidos de dor.

O que impressiona é que os torcedores gremistas não têm a ambiguidade física que faz muitos acreditarem que não são negros. Como Neymar, que ao ser perguntado se já havia sofrido racismo, respondeu que não, “até porque eu não sou preto, né?”

Creio que a ofensa dos gremistas negros, assim como o bullying dos meus colegas de infância e a resposta infeliz do então adolescente Neymar são resultados da desinformação. Certamente os dois ignoram as estatísticas desfavoráveis contra negros e não têm consciência que de três vítimas de homicídios no Brasil, duas são pretas ou pardas. Será que eles algum dia pararam para pensar por que há poucos dirigentes de negros no futebol brasileiro?

Os dois são vítimas da uma formação histórica escravocrata e violenta que usou o manto da mestiçagem para negar as contradições raciais. Como citou Joaquim Nabuco,  “o nosso caráter, o nosso temperamento, a nossa organização toda, física, intelectual e moral, acha-se terrivelmente afetada pelas influências com que a escravidão passou 300 anos a permear a sociedade brasileira.”

Desconheço os torcedores negros que ofenderam o goleiro do Santos, mas tenho certeza que eles cresceram ouvindo que seus cabelos são ruins e escutando piadas associando a pela negra à feiura ou à criminalidade.  Viveram com o racismo à espreita, assim como eu, Neymar e meus colegas de infância, contudo sem que o assunto fosse discutido nas escolas ou em casa.

Recorro aqui, mais uma vez, à palestra de Mellody Hobson no TED. Negra e presidente de um grupo de investimentos, ela defende a necessidade de discutir o racismo e colocar o assunto em evidência, por mais desconfortável que seja, e com isso contribuir para o fim do preconceito de cor. Só assim, com o assunto nas escolas, na boca de pais e mães de família e até nos botecos, alguns negros sairão da cegueira que os faz agir como capitães do mato.

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