O que foi bom para a Alemanha em 1953 é bom para a Grécia em 2015

Tsipras e Merkel
Tsipras e Merkel

Publicado no Guardian:

 

Os argumentos que estão sendo usados pelo governo grego para assegurar o perdão da dívida podem ser rastreados no breve discurso aos estudantes da universidade de Harvard em 5 de junho de 1947.

Foi lá que George Marshall, então secretário de Estado dos Estados Unidos, lançou a ideia de um programa europeu de reconstrução econômica. Os americanos viram que a Europa estava à beira de um colapso econômico. Sua capacidade industrial tinha sido aniquilada. O comércio estava estagnado. As pessoas sentiam fome e, na visão de Marshall, sob o risco de se voltarem para o comunismo.

Independentemente de ter sido o momento da virada para as economias européias pós Segunda Guerra, o discurso de Marshall não foi considerado particularmente importante na época. O Departamento de Estado não se importou em contar a alguém na Europa o que Marshall estava prestes a dizer, e a embaixada britânica considerou que não valia a pena pagar por uma mensagem a cabo para transmitir uma cópia da fala para Londres.

Mas o discurso teve cobertura do correspondente da BBC em Washington e, por sorte, foi ouvido por Ernest Bevin, então Secretário das Relações Exteriores da Grã Bretanha, em um equipamento sem fio que ele mantinha ao lado de sua cama. Bevin aproveitou a oportunidade dada pelo governo norte-americano, que dizia que os europeus deveriam criar seu próprio plano para a distribuição do dinheiro. “Foi como um sopro de vida para um homem se afogando”, disse mais tarde o secretário. “Parecia trazer esperança onde não havia nenhuma”.

Lições foram aprendidas com os erros cometidos pós Primeira Guerra Mundial. Na época, as vitoriosas potências aliadas impuseram uma paz à Alemanha calçada em punições, exigindo pesadas reparações, que criaram ressentimentos.

Marshall tentou uma abordagem diferente. Ao longo de quatro anos, os Estados Unidos injetaram US$ 13 bilhões na Europa (o equivalente hoje a mais de US$150 bilhões), na esperança de reconstrução da capacidade econômica dos países, possibilitando que negociassem entre si e repelindo, assim, a ameaça da União Soviética de Stalin. Não foi um ato totalmente altruísta. Naquela época, os Estados Unidos eram responsáveis por 50% da produção de bens no mundo e precisavam encontrar mercados para seus produtos. A falta de demanda de países como França, Itália e Alemanha em 1947 mostrava que isso não seria possível.

A Grã Bretanha foi a grande beneficiária do Plano Marshall, recebendo mais de um quarto do total. A Alemanha ficou com US$ 1,4 bilhões (11% do total), quatro vezes mais que o montante recebido pela Grécia.

Três anos atrás, Hans Werner-Sinn, presidente do IFO (Instituto de Pesquisas Econômicas) em Munique, chamou a atenção para o fato do Plano Mashall ter sido responsável por 4% do PIB da Alemanha na época, enquanto a Grécia recebeu, naquele mesmo momento, uma assistência econômica no valor de 200% de sua produção nacional.

Esses dados, no entanto, negligenciam dois aspectos. O primeiro é o ressentimento da Grécia pela ocupação germânica durante a Segunda Guerra Mundial. Como colocou Alan Bullock, biógrafo de Bevin: “A Grécia era um país pobre, mesmo em tempos prósperos. Sua economia tinha sido destruída por uma série de invasões, ocupações, resistência, represálias e guerra civil. Oito por cento da população de sete milhões foi morta, dez vezes o índice na Grã Bretanha durante a guerra. Os alemães acabaram com as reservas pecuárias do país, e tudo o mais que pudessem arruinar: ferrovias, ruas, pontes, portos foram destruídos”.

O segundo aspecto é que as transferências diretas de dinheiro foram apenas uma parte da ajuda que a Alemanha recebeu através do Plano Marshall.  Muito mais importante que os US$ 1,4 bilhões foi o perdão da dívida concedido na Conferência de Londres de 1953.

Albrecht Ritschl, professor de História da Economia na LSE (Escola de Economia e Ciência Política de Londres), disse em um artigo de 2012 para a revista The Economist : “O Plano Marshall tinha um escudo externo, o programa de recuperação econômica da Europa, e um núcleo interno, a reconstrução econômica do continente com base no perdão da dívida e na integração com a Alemanha. Os efeitos de sua implementação foram imensos. Enquanto a Europa Ocidental dos anos 50 lutou contra o débito/PIB  a taxas perto de 200%, a nova Alemanha Ocidental desfrutou de débitos/PIB a taxas menores que 20%. Esse foi o real benefício recebido pela Alemanha do Plano Marshall, além de sua forçada re-entrada no mercado europeu.

Nos próximos dias, o Primeiro Ministro da Grécia, Alexis Tsipras, estará argumentando que o que foi bom para a Alemanha em 1953 é bom para a Grécia em 2015.

 

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