O que nós temos em comum com Suzane da Silva, estudante negra do ProUni. Por Nathali Macedo

                                                                 O discurso de Suzane da Silva

O rosto de Suzane da Silva, a estudante de medicina negra, periférica e bolsista pelo ProUni que posicionou-se contra o golpe e contra o retrocesso recentemente no Palácio do Planalto, me é estranhamente familiar.

Ou não tão estranhamente assim. Ela se parece com uma vizinha que tive na infância. Era cuidadora de idosos. Viera de uma zona rural esquecida para trabalhar na casa da família vizinha, um casal de velhinhos simpáticos. Ela fazia serviços de manicure para ajudar no orçamento e tentava, lá pelos vinte e poucos anos, terminar o ensino médio com aulas noturnas.

Era difícil supor que os próximos anos da vida daquela mulher a conduziriam a uma realidade melhor. Numa cidade pequena do recôncavo baiano, todas as universidades da redondeza eram privadas e tinham mensalidades altíssimas – a mercantilização da educação já ferozmente se anunciava.

Os jovens de classe média da cidade cursavam enfermagem ou nutrição numa cidade vizinha, e voltavam para casa com um emprego na maternidade local ou, no mínimo, um diploma embaixo do braço. Mas não ela. A universidade não era para o bico da cuidadora de idosos da casa vizinha, que continuaria limpando penicos cinco dias por semana e pintando unhas aos sábados.

Fui embora da cidade sem saber o que se sucedeu àquela mulher. Agora, oito anos depois, algum sinal de progresso parece ter alcançado a cidade que me acolheu na primeira infância: uma universidade federal e algumas outras privadas.

Gosto de imaginá-la de jaleco branco, como as filhas das famílias de classe média na cidade, aquelas que foram as primeiras a levarem um celular para a escola e aprenderam a dirigir aos dezoito.

Não posso vê-la agora, oito anos depois, e me certificar de que ela descobriu que a miserabilidade e a subserviência não mais são determinados no nascimento, mas posso encontrá-la em tantos outros rostos que me cruzaram o caminho, talvez no meu próprio.

Eu, que morava no mesmo interior que ela, nordestina, filha de um motorista e de uma dona de casa, que me formo em direito pelo ProUni aos vinte e dois anos (precisamente no próximo sábado).

Estou mesmo, e não estou sozinha: a cuidadora de idosos está, a minha amiga do Nordeste de Amaralina está, e Suzane da Silva também está. Nós saímos da cozinha, da senzala e do armário. Agora, nós também discutimos política, também ocupamos cadeiras nas universidades e também votamos de acordo com as nossas próprias ideologias.

Então, Suzane se parece também comigo. E com tantos dos meus colegas de universidade. E com tantas babás e com tantas cuidadoras de idosos. Mas, como nós, Suzane venceu.

E isso, felizmente, já me é familiar.