O que o novo caso de estupro coletivo no Ceará pode nos ensinar. Por Nathali Macedo

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A Escola Municipal Gabriel Cavalcante, palco da tragédia

Quando crianças estupram outra criança dentro de uma escola pública brasileira, significa que precisamos falar ainda mais sobre a cultura do estupro.

No dia 6 de junho, um menino portador de necessidades especiais de nove anos foi violentado por outros cinco meninos numa escola primária de Fortaleza.

Este caso, que ainda está sendo investigado, faz com que nos perguntemos: meninos e homens também podem ser vítimas de estupro?

Problemas estruturais atingem a todos indistintamente, embora a uns mais que a outros, e o fato é que todos nós estamos suscetíveis à violência sexual.

Nas prisões brasileiras, presidiários são estuprados quando não apresentam uma conduta aceitável no conceito de outros presidiários. Bateu na mãe? Violentou a irmã? Maltratou criancinhas? Vai “virar mulherzinha” na cadeia. Pela lógica masculina, “virar mulherzinha” é o castigo mais pesado possível para um homem.

Crianças e adolescentes são 70% das vítimas de estupro no Brasil, segundo dados do Ipea. 89% das vítimas, segundo a mesma pesquisa, são mulheres e de baixa escolaridade. A maior constante em se tratando de violência sexual, portanto, não é o gênero, é a vulnerabilidade.

Quantos casos de estupro são silenciados, todos os dias, em manicômios e orfanatos? Quantos moradores de rua são estuprados e cuspidos feito lixo? Quantas prostitutas são violentadas quase diariamente? A cultura do estupro espera apenas a próxima vítima vulnerável, de preferência uma cuja desumanização garanta a impunidade pelo crime.

As mulheres são, portanto, vítimas mais comuns de violências sexuais porque são frequentemente desumanizadas e objetificadas. Quando somos retiradas da prerrogativa de seres humanos e nos transformadas em produto, estamos mais suscetíveis a termos os nossos corpos violados.

O que, afinal, têm em comum as duas vítimas recentes de estupro coletivo no Brasil? De um lado, uma menina de 16 anos, mãe solteira e moradora de uma favela carioca; de outro, um garoto de 9 anos, nordestino e com necessidades especiais. O que as duas vítimas tem em comum? Ambos são encarados pela cultura do estupro como objetos prontos à satisfação da lascívia masculina. Ambos estão em desvantagem em qualquer relação de poder.

Os homens sentem menos medo de serem estuprados do que as mulheres – 90% das mulheres para 49% dos homens, ainda segundo o Ipea – porque estão, evidentemente, protegidos por sua masculinidade. A eles é conferido o status de humanidade, incondicionalmente, e entre eles há uma ética incompreensível segundo a qual homens merecem ter seus corpos preservados, desde que não estejam em uma situação de vulnerabilidade, como um garoto de 9 anos portador de necessidades especiais ou um presidiário rechaçado por todos os demais.

Quando o patriarcado perceber que a cultura do estupro não dizima apenas mulheres, talvez faça algo a respeito.