O que Paul não disse a John

“CERTAS COISAS você deve dizer, ou vai lamentar depois.”

Quem está dizendo essa verdade absoluta é Paul McCartney. É uma daquelas noites soberbas do verão inglês, em que uma brisa fresca neutraliza o calor de quase 30 graus. É domingo. Paul está no palco do Hyde Park, em Londres, e eu a alguns metros, de pé na grama que convida a deitar, no meio de milhares de pessoas de todas as idades que, como eu, riem infantilmente ao ver e ouvir Paul. Me dei conta, ali no Hyde, de que, sobretudo quando se tratava de canções dos Beatles, minha risada era fácil, genuína, tola mesmo. Igual à que tenho quando falo com minha caçula Camila pelo Skype.

É um concerto beneficiente, em prol do combate ao HIV na África. Boa parte dele está no vídeo acima, do YouTube.

Paul se refere, na sua reflexão de vida prática, a John Lennon. Foram parceiros incomparáveis. Compartilharam a glória precoce e os excessos que ela sempre traz. Basicamente, no caso deles, drogas, sexo  e rock’n roll. E depois se separaram com amargor. Escreveram canções duras um para o outro.

Fazia dez anos que os Beatles tinham acabado quando John foi assassinado em frente de seu prédio em Nova York, pouco depois de lançar um disco de retorno de um silêncio de cinco anos.  John e Paul estavam ressentidos um com o outro.

Paul não disse, depois, certas coisas que gostaria de dizer a John. As balas destruíram essa possibilidade. E ele então transformou essa frustração em arte. Escreveu a homenagem a John mais bonita entre tantas que foram feitas: a comunidade do rock estava de joelhos naquele final de 1980. Era como se tivesse morrido a música, e não John.

A resposta de Paul foi Here Today.  A jornada de ambos é relembrada sob uma melodia triste e linda, as marcas essenciais de Paul, expressas em canções como Yesterday, Eleanor Rigby, The Long and Winding Road e Let it be. É uma conversa imaginária.

“E se eu dissesse que realmente amei você e fiquei encantado porque você apareceu no meu caminho?” Esse é meu verso predileto.

Quantas vezes gostaríamos de dizer coisas assim e simplesmente perdemos a chance, por orgulho, vaidade, ou simplesmente por acreditarmos que teremos muitas oportunidades sem considerar a precariedade de tudo?

Em escala menos dramática, pensei nisso ao dizer a Paul, numa entrevista em Londres no final do ano passado, o quanto sou grato a ele, por ter me proporcionado e proporcionar tantos momentos bons. Não sei de teria outra chance, e aproveitei.

Paul é, evidentemente, um homem feliz com seu ofício. Troca de instrumento constantemente no palco, e você tem a sensação de que ele ficaria tocando a noite toda se pudesse. Vai bem em tudo, do piano à guitarra solo, mas é no baixo que excede. É o maior baixista do rock, e quase que por acaso: alguém tinha que tocar baixo quando Stu Sutcliff deixou a banda, e George era muito bom e John acabara de comprar uma guitarra nova. Logo … Ninguém tem que insistir muito para um bis, e outro. Agradece os aplausos a cada música. Empunhou no Hyde uma bandeira da Inglaterra, uma forma de confortar um país que acabara de ser massacrado na Copa do Mundo e logo por quem — os alemães, que os ingleses abominam, um sentimento plenamente correspondido e alimentado em campos de batalha ao longo de séculos. Mexe nos cabelos pintados e talvez implantados como se fosse na cabeleira que mesmerizou o mundo nos anos 60, o célebre mop top, a franjinha.  Duas vezes ele olha para o céu azul de Londres no concerto. Uma é quanto canta Jet, da época do Wings.

Outra é quando fala em John antes de Here Today. Encerro com ela, abaixo. E sugiro que esse texto seja lido com a música que, por alguns minutos e ao mesmo tempo para sempre, reúne os dois meninos de Liverpool que num certo dia se encontraram numa festinha de igreja para imensa sorte de todos nós, John Winston Lennon e James Paul McCartney.

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