O que se sabe do relatório do Pentágono sobre OVNIS e por que pode ser prova de vida extraterrestre

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POR ANA ADRIANO MOTA

O relatório do Pentágono sobre a investigação que tem sido realizada sobre Objetos Voadores Não Identificados (OVNIs ou UFO na sigla inglesa) está prestes a ser divulgado – segundo o New York Times, será já esta sexta-feira, 25. Apesar de ainda ser confidencial, várias informações têm vindo a público desde o ano passado, levando os defensores da existência de vida extraterrestre a encará-lo como uma prova que dá credibilidade às suas convicções.

As teorias sobre OVNIs e extraterrestres ganharam fôlego quando, em 2017, uma notícia do New York Times trouxe a público que o Departamento de Defesa norte-americano tinha gasto 22 milhões de dólares (18 milhões de euros) num programa que recolhia e analisava avistamentos de OVNIs. Chamava-se Programa Avançado de Identificação de Ameaças Aéreas (Advanced Aerospace Threat Identification Program), iniciado em 2007 e dissolvido, alegadamente, em 2012, por falta de financiamento. O assunto ganhou ainda mais destaque quando Luis Elizondo, ex-diretor do programa, deu uma entrevista onde afirmou que este teria continuado até 2017.

O uso de fundos governamentais voltou à ordem do dia em plena pandemia, devido à necessidade de medidas de alívio relacionadas com a Covid-19. Em junho de 2020, o Congresso dos EUA realiza uma audiência de onde advém uma adenda que obriga as agências secretas a publicarem um relatório, não classificado, com informações sobre OVNIs e com a análise dos dados já recolhidos. É nessa audiência que se fica a conhecer a existência da Task Force de Fenómenos Aéreos Não Identificados (Unidentified Aerial Phenomena Task Force, UAPTF na sigla inglesa), um novo programa, com a mesma finalidade que o antecessor, que, embora não fosse confidencial, não tinha até então sido reportado.

É importante esclarecer que, ao contrário da conotação à qual é associada a palavra OVINI, esta apenas se refere a objetos voadores não identificados. Estes podem ter uma série de justificações, não tão interessantes como serem fenómenos extraterrestres, que podem ir desde balões a aviões militares. Foi por este motivo que foi utilizada a sigla UAP (Fenómenos Aéreos Não Identificados) para fugir ao estigma e à conotação associada a extraterrestres que tem a sigla OVNI/UFO.

A agosto de 2020, um comunicado de imprensa do Secretário Adjunto de Defesa, David Norquist, “aprova o estabelecimento” da Task Force e justifica a sua necessidade.  “O Departamento de Defesa estabeleceu a UAPTF para melhorar a sua compreensão e obter informações sobre a natureza e as origens dos UAPs. A missão da Task Force é detetar, analisar e catalogar UAPs, que podem representar uma ameaça à segurança nacional dos EUA”, pode ler-se.

O que já se sabe sobre o relatório

Muita expetativa tem sido criada à volta da divulgação do relatório do Pentágono, que terá de ser publicado até ao final deste mês. O próprio Barack Obama aumentou esta antecipação com uma entrevista que deu, no mês passado, no programa de entretenimento “The Late Late Show with James Corden”, do canal CBS. Quando confrontado com a questão o ex-presidente afirmou: “O que é verdade, e estou realmente a ser sério aqui, é que há filmagens e registos de objetos nos céus que não sabemos exatamente o que são”.

Obama não é a primeira figura política a comentar este assunto, também Hilary Clinton, durante a campanha eleitoral de 2016, chegou a ser apelidada pelos entusiastas em vida extraterrestre como “a primeira candidata E.T”, cita o New York Times. “Quero tornar públicos os documentos tanto quanto possa. Há histórias suficientes por aí, que eu não acho que as pessoas estejam apenas sentadas na sua cozinha a inventá-las”, afirmou a candidata na altura.

Quase como uma premonição, alguns ficheiros acabaram mesmo por ser divulgados, mas apenas quatro anos depois, em 2020. O Pentágono deixou de considerar alguns vídeos e imagens confidenciais e acabou mesmo por publicá-los. Os primeiros foram três vídeos, dois de 2015 e um de 2004, que, apesar de já circularem na internet há anos, foi o Departamento de Defesa que partilhou os originais e confirmou a sua autenticidade. Outros vídeos lhes seguiram, incluindo um, de 2019, onde se vê um triangulo no céu e que tem levantado várias suspeitas.

Ao todo o New York Times afirma que o relatório terá mais de 120 incidentes documentados nas últimas duas décadas, avançando que a grande maioria destes não originaram de nenhuma tecnologia do governo norte-americano e que não é possível, por enquanto, determinar do que se tratam. A dificuldade prende-se com as manobras que os objetos parecem realizar nos vídeos, desde a aceleração, a capacidade de mudar de direção e até desaparecer. É esta falta de justificação que tem levado defensores da existência de vida extraterrestre a acreditar que são uma prova para as suas convicções.

“O fenómeno acaba de ser validado pelos documentos que dizem que sim, que há algo por aí. Nós não sabemos o que é, mas vale a pena investigar. E é isso que temos feito há décadas”, explica, à Sky News, Chris Jones, membro da Mutual UFO Network, uma das maiores e mais antigas organizações de investigação sobre OVNIs. “Este não é mais um bando de pássaros ou um balão ou gases do pântano. Sabíamos que era uma nave que estava a ultrapassar o nosso arsenal e isso foi em 2004. Na época senti que era histórico, agora tenho a certeza. Acredito que há ainda mais coisas que precisamos de ver e entender”, acrescentou, ao mesmo jornal, Sean Cahill, membro da marinha que testemunhou o momento do vídeo divulgado.

Também conceituados membros da comunidade científica têm começado a defender a necessidade de estudar estes fenómenos e condenam o tabu que se tem criado à volta do tema. Alexander Wendt, professor universitário em Ohio e especialista na área das relações internacionais, argumenta a necessidade de aprofundar o tema, sem excluir qualquer hipótese.

New York Times avança que a versão não classificada, que será divulgada esta semana, não trará muitas mais conclusões e que não afirmará ter evidências de tratar-se de um fenómeno extraterrestre. O jornal sustenta, ainda, que altos funcionários com informações sobre o relatório admitem que a ambiguidade das descobertas significam que o governo não pode descartar a possibilidade de ser uma nave extraterrestre.

No entanto, algumas alternativas têm sido avançadas desde a possibilidade de ser um balão meteorológico ou outros balões de pesquisa, e até mesmo de tecnologia experimental de uma potência rival. É esta última que oficiais dos serviços secretos afirmam, ao New York Times, acreditarem ser o caso de alguns dos avistamentos, apontando para a Rússia ou para a China. É importante notar que, segundo o jornal, o relatório também examinou incidentes envolvendo forças militares estrangeiras nas últimas duas décadas.

Independentemente de ter, ou não, conclusões sobre o que são os objetos observados, a divulgação deste relatório será um marco histórico, uma vez que será o relato mais substantivo sobre OVNIs realizado e tornado público pelos serviços secretos americanos.

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