O que significa a vaia que Dilma levou

Os brasileiros estão profundamente desencantados com a política e os políticos.

Estava na cara
Estava na cara

Alguma surpresa na vaia que Dilma levou na estreia do Brasil na Copa das Confederações?

Nenhuma.

(Aqui, um vídeo com a vaia.)

Os recentes protestos país afora mostram que os brasileiros vivem um outono do descontentamento.

Estão desencantados com a política de um modo geral.

Não respeitam o modo como as coisas são feitas no universo dos partidos. E como estranhar quando eles vêem fotos de Lula e Haddad com Maluf, ou Serra com Silas Malafaia, ou lêem falas de Marina favoráveis a Feliciano?

Também não anima nada ver a forma como Dilma trata os índios. Nunca tem tempo para eles, mas se encontra com ruralistas com irritante frequência.

E sem falar nos eternos sócios do poder, como Sarney.

As palestras milionárias de Lula — para não falar no lobby ‘patriótico’ de empreiteiras brasileiras para ganhar negócios na África — também não elevam a taxa de popularidade dos políticos.

Há um enorme cansaço com a política convencional, e não apenas no Brasil.

Na Itália, um comediante, Beppe Grillo, obteve uma votação extraordinária renegando a política tradicional.

Na Islândia, um humorista se elegeu prefeito da capital Reiquijavique tendo na plataforma itens como garantir toalhas de banho gratuitas nos banhos de piscina.

A ojeriza planetária à política e aos políticos que estão aí é uma disciplina que já vem sendo estudada por especialistas.

As vaias de Dilma se enquadram nesse desencanto geral.

Em termos eleitorais, isso significa pouco, apesar da vibração dos conservadores brasileiros: nenhum dos rivais de Dilma teria escapado dos apupos.

Aécio, por exemplo, teria provavelmente ouvido vaias ainda mais demoradas.

Verdade que Dilma poderia ter evitado ir ao estádio fatídico. O estado de espírito dos brasileiros não está para aplausos a políticos.

A Copa das Confederações foi cercada de denúncias de remoções forçadas de gente pobre que, como os índios, não tem quem a defenda — nem um governo pretensamente popular.

Estádio cheio, câmaras transmitindo a cerimônia de abertura para o mundo todo: Dilma poderia ter contornado uma situação de alto risco.

Ela não merecia ser socorrida por Sepp Blatter, o controvertido presidente da Fifa. “Cadê o respeito e o fair play?”, perguntou Blatter.

As vaias aumentaram de tom com a tentativa de sabão coletivo de um estrangeiro petulante ligado a João Havelange.

Mas, ainda que Dilma tivesse prudentemente descartado um compromisso que poderia expô-la a um embaraço internacional, os fatos não mudariam.

Os brasileiros estão descrentes de seus políticos. Há uma desconexão entre as duas partes.

Os vinte centavos apenas deixaram isso claro.

Evocar 1964 com protestos arquiconservadores estimulados pelos golpistas daqueles dias é tolice. Os protestos que varrem o Brasil são, ao contrário de então, essencialmente anticonservadores.

Aqueles entre os políticos que entenderem a mensagem e buscarem respostas tenderão a se dar bem no futuro.

Os que acharem que o povo é que está errado, bem, a lata de lixo está aí para eles.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!