O racismo contra Fernandinho: como o futebol pode despertar o pior dos brasileiros. Por Nathalí Macedo

Fernandinho

Eu realmente não me importo que a seleção brasileira tenha perdido o hexa.

A última vez que fiquei triste por futebol foi no 7 x 1 – não porque eu sou muito politizada, – crítica social fuderosa, lacrei! – mas porque tenho coisas mais importantes pra fazer, como por exemplo me alienar com animações na Netflix e séries da HBO.

A única coisa que me interessa no futebol é a potencialidade que ele tem de revelar os sentimentos humanos mais genuínos e sem filtros – inclusive os piores. “Emoção à flor da pele!”, diria Galvão.

Parece que nossas emoções escondidas e despertadas de quatro em quatro anos são as piores possíveis. Não à toa, atrocidades racistas e misóginas são frequentemente cometidas contra atletas e jornalistas esportivos.

Torcidas se transformam em gangues organizadas que estão mais preocupadas em destruírem a torcida contrária do que em assistirem ao próprio time ganhar. Pessoas choram abraçadas a réplicas de taças do mundo.

E então você percebe que o mundo, na maioria das vezes, não é um lugar bonito.

Mbappé experimentou o racismo à brasileira, aquele velado disfarçado de piada.  E são muitos os que também sentiram: Aranha, Daniel Alves, e também atletas de outras modalidades, como a judoca – maravilhosa! – Rafaela Silva.

Ontem foi a vez do meia Fernandinho da seleção brasileira. Ele precisou desativar os comentários em seu Instagram porque escreveram coisas asquerosas como “a culpa é desse macaco filho da puta!”

Os racistas que atacaram Fernandinho não estavam putos com a derrota. Estão putos com o fato de um homem negro se tornar milionário jogando futebol – isso eles nunca engoliram – e aproveitam a oportunidade da Copa do Mundo, em que quase todo sentimento é permitido, para destilarem o racismo que sempre disfarçaram muito mal.

Depois é só pedir desculpas e dizer que mudou – alô, Cocielo!

Racismo é crime. Injúria racial é crime. Crimes não são solucionados com pedidos de desculpas.

Ninguém se ateve ao jeito que Fernandinho joga futebol, mesmo que jogar futebol seja o trabalho dele. É assim que funciona o racismo: quando você é um negro, não importa o que você faça ou como você faça, é a cor da sua pele que determina quem você é.

Hoje eu tenho vergonha de ser brasileira. Não porque perdemos o hexa – foda-se o hexa – mas porque vivemos em um dos países mais racistas do mundo.

Força, Fernandinho.

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