O rato saiu da montanha e foi buscar queijo nos EUA. Por José Cássio

A tática aplicada por Moro sob orientação dos EUA é uma velha conhecida: apostar na desmoralização dos representantes do Poder Público, mediante a revelação de atos de corrupção, e estimular sua substituição por personagens ligados aos interesses norte-americanos (Imagem: reprodução YouTube)

O rato que o Brasil viu nascer da montanha de vazamentos da Lava Jato tem nome e sobrenome: Sérgio Fernando Moro.

O ex-juiz de Maringá, independentemente do que vier a ocorrer após esse que é o maior escândalo da história do país, conseguiu um feito inédito: jogou o Brasil no abismo, tramando contra a democracia, quebrando empresas estratégicas na área de infraestrutura, minando a confiança da população nas instituições e, especialmente, jogando na lata do lixo a credibilidade da Justiça.

Acuado por tantas revelações, Moro inventou uma agenda nos Estados Unidos, onde espera se reunir com cúmplices no seu projeto de desmonte do Estado brasileiro: os agentes da CIA, a agência de Inteligência responsável por investigar e fornecer informações de segurança nacional para os Estados Unidos.

Há tempos a interferência americana nos destinos do Brasil vem sendo denunciada. Em entrevista aqui no DCM, em novembro do ano passado, Fábio Konder Comparato já apontava.

“Tudo começou com o seminário internacional Illicit Financial Crimes, que deu origem ao denominado Projeto Pontes”, disse o jurista. “Esse seminário foi realizado no Rio de Janeiro, entre os dias 4 a 9 de outubro de 2009, com a presença de membros seletos da Polícia Federal, do Poder Judiciário e do Ministério Público da União Federal e dos Estados, contando também com a participação de representantes do México, Costa Rica, Panamá, Argentina, Uruguai e Paraguai”.

Naquela oportunidade, informa Comparato, o então juiz Sergio Moro e o procurador Deltan Dallagnol solicitaram treinamento para combater os chamados crimes de corrupção.

A estreita ligação de Moro com os Estados Unidos foi afinal revelada quando, em 2016, os meios de comunicação de massa norte-americanos o apresentaram como personalidade de destaque mundial, após receber a Medalha do Pacificador, concedida pelo Exército Brasileiro como reconhecimento pelos relevantes serviços prestados ao país.

A tática utilizada pelas autoridades americanas para se introduzirem no funcionamento do Estado Brasileiro segue um script bem conhecido: apostar na desmoralização dos principais representantes do Poder Público, mediante a revelação de atos de corrupção, e estimulando sua substituição por outros personagens ligados aos interesses norte-americanos.

“Tal estratégia, que se saiba”, segundo Konder Comparato, “foi pela primeira vez aplicada contra o presidente Getúlio Vargas, após a criação da Petrobras em 1953; mas não deu resultado, em razão do suicídio do Presidente no ano seguinte”.

Entre os incrédulos, a pergunta que se faz é: qual o interesse dos Estados Unidos em aparelhar Sergio Moro e Deltan Dallagnol para desestabilizar a democracia e levar o Brasil à bancarrota?

“Ela foi provocada, sem dúvida, pela descoberta em 2007 da camada do pré-sal, revelando um dos maiores campos de petróleo de todos os tempos”, diz Comparato.

No afã de se defender, Moro e os procuradores têm atacado a publicação dos vazamentos. Dizem que não podem garantir que as mensagens, que segundo eles foram obtidas por hackers, não foram adulteradas.

Seja como for, a associação entre o Intercept e a Folha dá uma nova voltagem ao material e debilita a estratégia de atacar a divulgação e a própria reputação dos jornalistas.

A Folha diz que não encontrou indícios de que os diálogos tenham sido adulterados, considerando, também, que a divulgação é de interesse público.

A matéria deste domingo explora mensagens trocadas entre Moro e Dallagnol a partir de março de 2016.

Nelas, o então juiz se diz preocupado com a repercussão negativa das gravações de Lula e Dilma e todo um pacote de interceptações envolvendo a família do ex-presidente, algumas sem qualquer ligação com as investigações.

Parte da opinião pública não aceitava a divulgação dos áudios minutos após recebê-los, especialmente por causa de um trecho envolvendo Dilma, que tinha foro privilegiado.

Outra crítica era o fato de que a captação ter sido feita fora do período legal autorizado.

Moro havia sido advertido pelo ministro Teori Zavascki, então relator da Lava Jato no STF, e temia ser punido pelo Conselho Nacional de Justiça.

Foi então que avaliou que a operação havia cometido uma “lambança”, lembrando a Dallagnol que a Polícia tinha espalhado uma lista apreendida em escritórios da Odebrecht envolvendo políticos com foro privilegiado em doações ilegais, o que levaria o caso para o Supremo Tribunal Federal.

“Não pode cometer esse tipo de erro agora”, escreveu o então chefe da Operação.

O procurador rapidamente agiu para animar o colega.

“Faremos o que for necessário para defender você de injustas acusações”, devolveu Dallagnol.

Em outro momento, Moro apontou suas críticas aos “tontos” do MBL por protestarem no condomínio do ministro Zavaski.

“Isso não ajuda “, disse.

Os próximos capítulos dessa novela vão se dar em duas frentes: uma política, outra jurídica.

Na primeira, a oposição vai manter a pressão por uma CPI sobre o caso. A segunda é no Supremo Tribunal Federal, já que uma turma prevê analisar na próxima terça-feira um pedido da defesa de Lula.

Ainda não é certo que haverá esse julgamento —os ministros do STF, como já ocorreu em outras oportunidades, podem adiar a análise, apesar de estarem conscientes do desgaste que a chicana iria provocar.

Nos Estados Unidos, onde está neste momento, Moro segue em busca de apoio para se livrar da montanha de escândalos que desabou sobre sua cabeça. O rato enfim saiu da toca. E está nu.

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