Uma blogueira de Santa Maria escreve sob o impacto da tragédia na cidade

Atualizado em 4 de fevereiro de 2013 às 15:26

Parecia que a alegria tinha sido proibida entre nós.
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O texto abaixo é uma fusão de dois artigos da blogueira Pequena Lou, e foram publicados originalmente no blog Menina Louca

Fiquei sabendo da notícia pelo rádio. Na manhã de domingo, o delegado (ou bombeiro?) entrevistado anunciava cerca de 30 mortos. Comentava com calma que seria feita uma perícia e que ele ainda não podia divulgar números antes das investigações. Ao longo da manhã, o número de vítimas aumentava drasticamente.

Minha mãe ligou no meu celular lá de Bruchhausen-Vilsen, minha tia e vó me ligaram pra confirmar que eu não frequento boates. Todos os familiares ficaram aliviados quando disse que estava passando o fim de semana no Rio de Janeiro.

Os programas de TV incorporavam notícias sobre a tragédia de Santa Maria em sua programação. O Fantástico foi quase todo sobre a tragédia. Dilma largou tudo no Chile e foi a Santa Maria. Essa tragédia alimentou a mídia por um dia inteiro. E as pessoas consumiam os números crescentes de mortos, comentavam a notícia e se indignavam dentro e fora do país: recebi e-mails de amigos em Rondônia, Paraíba, Campinas e Holanda. Todos pediam notícias e adivinhavam que talvez algumas das vítimas tenham sido meus alunos. Não eram: li as listas, não reconheci os nomes.

Todas as notícias apontavam como a sequência de erros, falhas e faltas de entendimento/orientação na boate tinha sido assustadora. No rádio, ouvimos que os seguranças impediram a saída dos jovens por 8 minutos, com a alegação de que tinham que pagar a conta antes de sair. Fica evidente que os seguranças não foram treinados para lidar com situações de emergência, apenas com pessoas que tentam consumir sem pagar. Na TV ouvimos o especialista dizer que as pessoas devem ter morrido asfixiadas em 4, 5 no máximo 6 minutos.

Muitos morreram amontoados na região dos banheiros, provavelmente procurando uma saída alternativa (banheiros costumam ter janelas). Oferecer apenas uma saída para uma capacidade de 1.500 pessoas me parece criminoso. Os primeiros extintores usados para apagar as chamas no teto de isopor não funcionaram. Li no jornal (que ofereceram no avião do Rio a Porto Alegre) que o alvará da boate tinha vencido, mas que estavam providenciando um novo. Mesmo assim, o papel não resolve: é preciso que o alvará corresponda a condições reais de segurança. Não adianta ter alvará para um estabelecimento que só tem uma porta e extintores vencidos. Lembro do laudo de vistoria técnica dos bombeiros quando inspecionaram as condições de segurança na UNIR – Universidade Federal de Rondônia. As irregularidades eram tantas, que os bombeiros concluíam que a vida das pessoas e a integridade do patrimônio da universidade estavam em risco. No entanto, não interditaram a UNIR. Adianta ter alvará? Nem o laudo dos bombeiros nos adiantou.

Quando vi as imagens das pessoas abrindo as paredes com marretas, reparei que os homens estavam sem camiseta. Logo imaginei que teriam morrido mais mulheres do que homens na boate, porque duvidei que as mulheres tenham tirado suas blusas para criar uma espécie de filtro e assim inalar menos fumaça tóxica. Os números de homens e mulheres mortos são semelhantes, invalidando a minha hipótese. E ouvi no rádio, no caminho da casa do Luis ao aeroporto, que botar a camiseta na frente do nariz e boca alivia, mas não salva. Além de quente, a fumaça era altamente tóxica.

A banda era conhecida por seus efeitos pirotécnicos. E provavelmente a banda costumava se apresentar em lugares abertos. Não ser capaz de se adaptar à nova situação de boate fechada com teto baixo e cheio de revestimento acústico me parece se enquadrar numa espécie de darwinismo cruel: adapt or die.

Me chamou atenção que a notícia da tragédia e suas primeiras imagens tenham sido veiculadas pela internet (arrisco adivinhar: Facebook). Esse público está profundamente imerso no mundo digital/ virtual. Ouvi depoimentos de que durante a retirada dos corpos, o som dos celulares tocando era atordoante. Li no jornal o depoimento de uma mãe que ligou pro celular do filho. Quem atendeu foi um policial que informou que o rapaz estava morto. Pareceu tão irreal, que demorou pra mulher entender.

É preciso aprender com os erros. Como era possível uma casa noturna funcionar com apenas uma porta, pela qual entram até 1.500 pessoas? Como era possível os seguranças não entenderem a gravidade da situação e se escorarem no famoso “ordens são ordens, fui treinado para controlar o fluxo de consumidores, não de pessoas”? Como pode não haver leis nem fiscalização?

Um contra-exemplo de leis e fiscalização rígidas (demais) eu ouvi no rádio do taxi que me levou ao aeroporto: no mesmo domingo de pré-carnaval carioca, 156 foliões foram presos por mijarem na rua. Mijar na rua dá prisão; oferecer condições precárias de segurança dá em tragédia.

Confesso que me surpreendi quando encostei no balcão de passagens em Porto Alegre e a moça atrás do vidro me vendeu uma passagem pra Santa Maria dali a 10 minutos. Isso significava que, no dia depois da tragédia, o fluxo já não era mais em direção a Santa Maria.

Quando desci do ônibus em Camobi (bairro em que fica a UFSM e que fica a 10km da cidade), o silêncio me assustou. Cheguei a pensar que de agora em diante havia um acordo tácito de que era proibido rir, fazer barulho, cantar.

Vestidos de branco e sem velas
Vestidos de branco e sem velas

De noite havia uma caminhada marcada pra sair da praça Saldanha Marinho no centro e chegar no ginásio onde os corpos tinham sido velados. Não era pra levar velas, mas era pra vestir branco. No ônibus que peguei no Camobi quase todos estavam de branco. Aliviada, reparei que a alegria não tinha morrido. Os que estavam de branco desceram todos no mesmo ponto, subiram todos a mesma rua e se juntaram todos na mesma praça.

Na praça havia um mar de gente. Conversavam pouco. O máximo que saía era um “e aí” que obtinha como resposta outro “e aí” na mesma entonação. Registrei mais abraços e olhares tristes do que conversas, bandeiras, cartazes e protestos. Ondas de palmas vinham e se iam; não sei o que aplaudiam. Balões brancos foram soltos, mas eles voltavam e estouravam. Ouvi murmúrios diluídos do Pai Nosso e ouvi como cantavam (mais de uma vez) o hino gaúcho com fervor:

Mostremos valor constância
Nesta ímpia e injusta guerra
Sirvam nossas façanhas
De modelo a toda Terra

A massa branca se pôs em movimento. No trajeto, reparei que havia pouca gente nas janelas. Isso me deu a sensação de que a cidade inteira estava de branco e na rua. A massa branca caminhou até o ginásio. Lá de dentro ouvimos gritos e palmas. A massa respondeu e dispersou. Não caberia todo mundo dentro do ginásio e não era o propósito incomodar os remanescentes com a nossa presença.

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