O relato de uma jornalista israelense sobre quem está morrendo em Gaza

Crianças e civis dominam a lista de palestinos mortos por Israel. Militantes são pequena minoria

Gaza, durante a Operação Pilar da Defesa

Fazendeiros a caminho do mercado para vender legumes, vendedores de água potável e pessoas que simplesmente moravam perto demais dos alvos aéreos de Israel estavam entre os 34 palestinos que se calcula que morreram nos ataques do exército israelense apenas nos primeiros dois dias da Operação Pilar de Defesa. (Este o nome dado por Israel para sua recente ofensiva em Gaza.)

Somente seis das vítimas eram comprovadamente membros de grupos militantes.

Entres os palestinos mortos em Gaza esta semana, estão os 12 integrantes das famílias Daloo e Manzear, incluídas quatro crianças pequenas. Todos foram mortos quando o piloto da Força Aérea de Israel bombardeou sua casa por engano, de acordo com fontes oficiais israelenses.

Calcula-se que entre 94 e 96 palestinos foram mortos do início da Operação Pilar da Defesa até as 6 horas da tarde de segunda-feira. Pelo menos 58 eras civis e 18  crianças.  Os números foram reunidos pelo Centro Palestino de Direitos Humanos, pelo Centro de Direitos Humanos Al-Mezan e por fontes médicas em Gaza. A confirmação imediata de todos os nomes das vítimas é complicada, e os números fornecidos por diferentes fontes nem sempre batem.

Por isso é difícil afirmar quantos palestinos foram mortos precisamente e quem exatamente eram eles. Reunir essa informação exige visitar casas que foram destruídas, bem como hospitais e áreas abertas, uma tarefa realmente difícil dadas as frequentes explosões na densamente povoada área residencial de Gaza.

Fontes palestinas confirmam que Israel tem advertido os habitantes de Gaza quando algum ataque está prestes a ser feito a uma casa, dando aos civis a chance de escapar. À uma hora da madrugada desta terça-feira, Israel disparou três pequenos foguetes de advertência para uma casa de cinco pisos antes de destruí-la com ataque aéreo. Vários residentes disseram que também receberam avisos de Israel pelo celular. Muitos moradores do prédio e das redondezas saíram da área a tempo de escapar das explosões, mas 15 pessoas, incluindo quatro crianças, ficaram feridas. Cerca de 18 prédios na região foram fortemente afetados.

Observadores disseram que quando essas bombas causam tantos estragos, é porque os explosivos estavam escondidos na área. A informação não foi nem confirmada e nem desmentida.

Mas os avisos de Israel de um ataque iminente nem sempre dão aos moradores  tempo suficiente para escapar. Às duas horas da madrugada de segunda-feira, o exército israelense soltou foguetes de advertência para uma casa vazia nas vizinhanças de um bairro chamado Zeitun. O prédio explodiu um minuto depois. Os integrantes da família Abu Zur não conseguiram escapar dos efeitos colaterais da bomba. Foram pegos dentro de sua própria casa. Um garoto de cinco anos foi morto, junto com dois homens e uma mulher. Ao todo, 28 membros da família foram feridos no ataque e 20 casas atingidas.

Fora os mais de 100 palestinos mortos  desde que a Operação Pilar começou, outros 700 foram feridos, incluídas aí pelo menos 215 crianças. Calcula-se que 585 prédios tenham sido alcançados pelas bombas, e 46 deles completamente destruídos, de acordo com o Centro de Direitos Humanos Al-Mezan.

Quatro fazendeiros de Gaza estão entre os palestinos mortos em dois diferentes ataques israelenses na manhã de terça-feira. Pouco antes das 6 da manhã, Rahman Attar, de 51 anos, foi morto a caminho de um mercado. Cerca de 90 minutos depois, um caminhão cheio de tomates foi atingido por um míssil. O motorista Tamer Bashir, 31 anos, e os dois passageiros, um de 41 e outro de 51, também morreram.

Uma mulher de Gaza contou que para comprar comida no mercado ela teve que enganar as suas filhas, que tinham ouvido as informações sobre as mortes dos fazendeiros e não queriam que sua mãe corresse perigo.  Na tarde de domingo, Israel disparou dois mísseis contra um veículo distribuindo água potável numa região de Gaza, matando o motorista e seu filho de 10 anos.

Aproximadamente 95% da água de Gaza não é adequada para ser bebida, o que força os residentes a comprar água potável ou receber da prefeitura. Outro garoto de 10 anos foi morto com seu pai no final de domingo quando eles estavam tentando consertar um cano no teto de sua casa. Fragmentos de mísseis ou bombas frequentemente causam estragos nos canos de água, e os moradores arriscam a vida ao ir ao telhado para tentar consertá-los.

Às 22 horas de domingo, Jalal Nasser, de 42 anos, e seu filho Hussein, foram mortos por um míssil de Israel. Mais tarde naquela noite um homem de 31 anos, cujos parentes o descrevem como mentalmente retardado, foi morto num ataque aéreo quando estava em frente à sua casa.

O artigo acima foi publicado originalmente no jornal israelense Haaretz.

O jornalismo do DCM precisa de você para continuar marcando ponto na vida nacional. Faça doação para o site. Sua colaboração é fundamental para seguirmos combatendo o bom combate com a independência que você conhece. A partir de R$ 10, você pode fazer a diferença. Muito Obrigado!

Compartilhar
Artigo anteriorComo um bilionário pervertido virou o novo príncipe encantado
Próximo artigoFicou fácil para o Corinthians
Avatar
A jornalista Amira Hass é correspondente no Território Ocupado do jornal israelense Haaretz. Nascida em Jerusalém em 1956, Hass entrou no Haaretz em 1989 e exerce o seu cargo desde 1993. Como correspondente do território, ela passou três anos vivendo em Gaza, que serviram de base para o seu aclamado livro "Bebendo o Mar de Gaza". Ela vive desde 1997 na Cisjordânia.