O Rio vai aceitar calado o fato de ser recordista em mortes de crianças por PMs? Por Kiko Nogueira

 

Antes de qualquer coisa: eu amo o Rio de Janeiro. Profundamente. A cidade mais bonita do país. Ponto.

Isto posto, no Rio sobrevive um velho mito: o da convivência pacífica entre morro e asfalto. Ricos e pobres estão lado a lado, dividindo um território apertado. O oposto de São Paulo, por exemplo, e sua periferia.

A maior prova dessa democracia é a praia. Lá estão o playboy de Ipanema e o morador do Borel, o branco e o preto, comendo um biscoito O Globo, falando da novela, ouvindo um sambinha. De sunga e biquini, somos todos iguais.

OK. Alguém ainda acredita nisso?

Faz sentido o Rio de Janeiro ser recordista brasileiro na morte de crianças pelas mãos de policiais? Faz sentido ninguém protestar?

O carioca encheu as ruas no dia 15 de março para pedir impeachment, fim do comunismo, fora Dilma, morte ao PT, prisão para corruptos, volta dos militares e os cambau. Vai voltar no 12 de abril. Maravilha.

De acordo com um levantamento do UOL, pelo menos 50 jovens até 14 anos foram mortos em “intervenções” entre 2001 e 2012. São dados do Ministério da Saúde. Isso é o que se sabe oficialmente, portanto.

Corresponde a 60% do total no Brasil (84).

Não estava na hora de uma passeata contra o assassinato desses meninos? Contra essa marca? Onde está a comoção? Ou não é assunto? Sim, a ONG Rio de Paz fez um ato pela morte de Eduardo de Jesus. Juntou alguns gatos pingados. Era isso? Resolvido?

Talvez não seja nada demais. Assim como ninguém deve achar estranho o vídeo do PM que acaricia seu fuzil num looping sexual. “Olha o meu bebezinho aqui. Neném vai cantar, né? Neném vai cantar agora. Vai cantar para o bandido mimir”, diz o cidadão, que se sentiu absolutamente à vontade para postar as imagens no Facebook.

Um soldado lotado na UPP do Complexo do Alemão disse que acha que foi o autor do tiro que matou Eduardo. Segundo a corporação, depois de prestar depoimento, ele teve um “surto psicótico” e foi internado no hospital. O garoto cuja cabeça ele explodiu — sem querer — foi enterrado no Piauí, para onde seus pais voltaram, aterrorizados.

Outros vão morrer, mantendo o Rio de Janeiro na liderança do ranking nacional de mortes de crianças — sem querer — por soldados. Mas um garotinho a menos não é motivo para bater panela, é ou não é?

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