O romance policial segundo P.D. James. Por Camila Nogueira

Phyllis Dorothy James (1920 - 2014)
Phyllis Dorothy James (1920 – 2014)

P.D. James (1920 – 2014), morta há menos de um ano, foi uma das maiores romancistas policiais de todos os tempos. Sendo seu personagem mais famoso o inspetor Adam Dalgliesh, James criou uma vasta obra literária comparada àquela de grandes escritores, tais como Conan Doyle e Agatha Christie. Os trechos a seguir foram tirados de seu livro “Segredos do romance policial”.

Lady James, vamos começar com o básico: o que é um romance policial?

Um romance policial é aquele que possui os seguintes elementos: um crime central misterioso, geralmente assassinato; um círculo fechado de suspeitos, cada um com motivos, meios e oportunidade de cometer o crime; um detetive, amador ou profissional, que entra em cena como uma divindade vingadora para resolver tudo; e, no fim do livro, uma solução a que o leitor deveria ser capaz de chegar por dedução lógica das pistas inseridas no romance com astúcia enganosa, mas indispensável honestidade.

E por que assassinato?

O mistério central de uma história de detetive não precisa envolver uma morte cruel, mas o assassinato continua sendo o crime supremo e traz um peso atávico de aversão, fascinação e medo. É provável que os leitores fiquem mais interessados em saber qual herdeiro batizou com arsênico o chocolate noturno de tia Ellie do que em quem roubou seu colar de diamantes enquanto ela estava tranquilamente de férias em Bournemouth.

Fascinação?

Dorothy L. Sayers costumava dizer que a morte, em especial a morte violenta, proporciona à mente da cultura anglo-saxã um fundo de prazer inocente maior do que qualquer outro assunto.

Wilkie Collins (1824 – 1889) é tido por muitos como o pai dos romances policiais. O que a senhora acha?

Collins corresponde a boa parte dos requisitos estabelecidos para escritores policiais. Isto é, ele é meticulosamente preciso em seu tratamento dos detalhes médicos e forenses. Há muita ênfase na importância das pistas concretas – uma camisola manchada de sangue, uma corrente de metal – e todas elas são apresentadas ao leitor, prenunciando a tradição de jogo limpo segundo a qual nem mesmo o detetive pode estar de posse de mais informações do que o leitor.

Há algum tipo de regra referente aos romances policiais?

Ronald Knox, teólogo e escritor inglês, estabeleceu as seguintes regras: o criminoso deve ser mencionado na primeira parte da narrativa, mas não deve ser ninguém cujos pensamentos o leitor teve oportunidade de acompanhar; nenhum agente sobrenatural é admitido; não deve haver mais de um quarto ou passagem secretos; nenhum veneno ainda desconhecido deve ser usado, e é ainda melhor evitar qualquer aparelho que exija uma longa explicação científica; nenhum chinês deve ser mencionado; nenhum acaso deve auxiliar o detetive, assim como ele não deve possuir uma intuição inexplicável; o próprio detetive não pode cometer o crime ou contar com qualquer pista que não tenha sido imediatamente apresentada ao leitor; o amigo bobo do detetive, o Watson, deve ser um pouco, mas não mais que um pouco, menos inteligente que o leitor médio e seus pensamentos não devem ser ocultados; irmãos gêmeos ou sósias em geral não devem aparecer, a menos que o leitor tenha sido devidamente preparado para eles.

Penso em Agatha Christie. Ela ignorou muitas dessas regras.

Christie foi a arquiquebradora de regras. Ela enganou os leitores de maneira audaciosa em O assassinato de Roger Ackroyd, em que o narrador acaba se revelando o assassino, um defensável e engenhoso desafio a todas as regras e, embora tendo fornecido pistas perfeitamente honestas, um grande número de leitores nunca a perdoaram. Com outros escritores de mistério da Era Dourada, podemos ter uma razoável confiança de que o assassino não será um dos jovens enamorados, uma criança, um policial ou uma criada, mas com Agatha Christie não há favoritos nem entre assassinos nem entre vítimas. Com a sra. Christie, assim como na vida, a única certeza é a morte.

E quanto aos romancistas americanos, como Hammett e Chandler?

As histórias de Hammett não são sobre a restauração da ordem moral, nem se passam num mundo em que o problema do mal possa ser resolvido com as celulazinhas cinzentas de Poirot ou os sermões domésticos de miss Marple, um mundo tão inofensivo quanto arranjos de flores. Temos como exemplo as mulheres nas histórias dos durões. Elas são tentadoras, sexualmente atraentes – vistas pelo herói como inimigas de seu código masculino e do bom resultado do trabalho.

De fato, Christie e Chandler não tem muito em comum.

Com toda certeza o apelo universal de Christie não repousa em sangue ou violência, não nos corpos crivados de balas nas ruas perigosas de Raymond Chandler, na selva de pedra do detetive sardônico, rápido no gatilho, nem na cuidadosa análise psicológica da depravação humana.

Qual é o apelo de Christie?

Embora seus dois detetives, Poirot e miss Marple, de vez em quando investiguem mortes no exterior, seu mundo natural, conforme percebido pelos leitores, é uma aconchegante e romantizada cidadezinha inglesa, enraizada em nostalgia, com sua hierarquia bem ordenada: o cavalheiro rico – muitas vezes com uma esposa de antecedentes misteriosos –, o coronel aposentado, inescrupuloso, o médico de aldeia e a enfermeira regional, o farmacêutico – útil para a compra de veneno –, todas as solteironas fofoqueiras atrás das cortinas de renda, o pároco local, todos se movimentando com previsibilidade em sua hierarquia social, como em um tabuleiro de xadrez.

St. Mary’s Mead é uma aldeia deliciosamente charmosa.

E existe um aspecto muito prático em ambientar sua história em uma pequena aldeia. Como dizia Dorothy L. Sayers, em Londres, qualquer um, a qualquer momento, pode fazer ou se tornar o que quiser, mas em uma aldeia, não importa qual, são todos imutavelmente eles mesmos, párocos, organistas, varredores de calçadas, filhos de duques ou filhas de médicos.

A senhora acha que as histórias de Christie seriam facilmente adaptadas aos dias de hoje?

Não. Na verdade, poucas histórias escritas na Era Dourada poderiam ser adaptadas aos dias de hoje. Na Era Dourada, os leitores podiam aceitar que a vítima fosse morta porque guardava uma informação danosa sobre a imoralidade sexual do assassino, mas hoje isso dificilmente bastaria. As pessoas confessam alegre e lucrativamente suas aventuras sexuais para a imprensa com nenhuma, ou pouca, consequência prejudicial para a carreira ou a reputação.

Algo a acrescentar, lady James?

Acredito que todos os motivos que levam uma pessoa a cometer um assassinato podem ser explicados com a letra L: lust [luxúria], lucre [lucro], loathing [ódio] e love [amor].

Obrigada, lady James. Deixe-me acrescentar: a senhora é uma escritora incrível.

Escrever um romance policial não é tão difícil assim. O assassino tenta enganar o detetive; o escritor planeja enganar o leitor, para fazê-lo acreditar que os culpados são inocentes e os inocentes são culpados; e, quanto maior o engano, mais eficaz é o livro.