O show de oportunismo do senador que pediu a abolição dos partidos

Cristovam Buarque ouviu de orelhada os gritos de “Sem Partido!”  e achou, irresponsavelmente, uma excelente ideia.

Buarque: "Estão abolidos todos os partidos"
Buarque: “Estão abolidos todos os partidos”

A casquinha que os partidos e seus líderes estão tentando tirar da onda de protestos é tragicômica. O PSDB nunca foi tão PSDB. Depois de Alckmin bater pesado nos manifestantes em São Paulo, o Instituto Teotônio Vilela soltou um comunicado dizendo que, “quando o povo, enfim, se manifesta por si próprio, cabe a quem governa, a quem tem o poder de decidir e intervir no futuro do país respeitá-lo, ouvi-lo e agir. É o primeiro passo para que mudanças verdadeiras aconteçam”.

A Juventude do partido foi mais longe. Superou Arnaldo Jabor na velocidade estonteante com que mudou de rumo. Primeiro a declaração de que “não participará deste manifesto em virtude de acreditarmos que o mesmo tenha se transformado em movimento político onde um dos intuitos é de enfraquecer o governo do Estado de São Paulo”. Quarenta e oito horas mais tarde, a conversa era outra: “O Brasil entrou em um novo momento de participação política”. A Juventude acha tudo lindo, mas não participará com bandeiras e camisetas “em respeito aos desejos de todos os manifestantes para que partidos políticos não participassem”. (Nesse sentido, os peessedebistas foram mais espertos do que o PT, que mandou militantes para o sacrifício na quinta passada, numa convocação equivocada de Rui Falcão).

Agora, dos políticos que estão tentando faturar em cima deste momento, o gesto mais demagógico e absurdo veio de Cristovam Buarque (PDT-DF). Num discurso no Senado, na sexta-feira, Buarque defendeu simplesmente a extinção dos partidos políticos. A extinção. Caput. Finito. Ele ouviu de casa os gritos de “Sem partido! Sem partido!” da multidão e resolveu tirar sua casquinha.

“Talvez eu radicalize agora, mas acho que para atender o que eles querem nós precisaríamos de uma lei com 32 letras: estão abolidos os partidos. Isso sensibilizaria a população lá fora”, afirmou CB. “Talvez seja a hora de dizer: estão abolidos todos os partidos para colocar outra coisa em seu lugar”.

“Não existe nenhum caso de democracia de massa sem partidos políticos”, disse ao Diário o cientista político Frederico Almeida, professor doutor da Universidade São Judas Tadeu e coordenador de graduação da Fundação Getúlio Vargas. “Ele foi, no mínimo, irresponsável”.

O que poderia ser a “outra coisa” de que fala CB? Ela existe? “Não numa democracia”, prossegue Almeida. “No contexto da manifestação, é natural que as pessoas se expressem dessa maneira para extravasar sua insatisfação. Uma coisa é repensar a nossa política, o que é necessário. Outra é fazer uma bobagem e jogar o bebê fora junto com a água da bacia. Ele quer fechar o Congresso? Que alguém nos protestos diga isso é uma coisa; que o senador Cristovam Buarque defenda é outra história. Foi uma declaração irresponsável, oportunista…”

…E golpista?

“Não vejo o exército se movimentando ou algum risco maior para a democracia. Mas o que está havendo pode custar a eleição ao PT. E sempre existe o perigo de aparecer um salvador da pátria, como foi o caso de Fernando Collor de Mello”, afirma Almeida. “Os partidos e os políticos estão tão perdidos que chegam a sugerir coisas dessa natureza”.