O silêncio cúmplice de Frei Gilson diante de Trump e o ataque ao Papa

Atualizado em 16 de abril de 2026 às 8:23
O bolsonarista Frei Gilson durante realização de missa. Foto: reprodução

O silêncio de Frei Gilson diante dos ataques de Donald Trump ao Papa Leão XIV não é um detalhe — é uma escolha.

E uma escolha reveladora.

Seus defensores recorrem ao argumento já gasto: o frei “não fala de política”. A realidade desmente essa tese com facilidade. Frei Gilson fala — e bastante — quando o alvo são os direitos das mulheres, quando o tema é o combate ao chamado “comunismo” ou quando se trata de ecoar pautas típicas da extrema direita.

O silêncio, portanto, não é neutralidade. É conveniência.

Ao longo dos últimos anos, Frei Gilson construiu uma impressionante influência no campo religioso, dominando como poucos o uso das redes sociais para mobilizar fiéis. Trata-se de um feito notável do ponto de vista comunicacional. O problema não está na ferramenta, mas no conteúdo: essa influência tem sido usada para impulsionar uma visão ideológica que pouco dialoga com a tradição cristã centrada em Jesus de Nazaré — aquele que se colocou ao lado dos pobres, dos marginalizados e dos perseguidos, e não dos poderosos de ocasião.

Quando Donald Trump ataca o papa — líder máximo da Igreja que o frei diz representar — e chega ao ponto de se expor em encenações que beiram o delírio, como posar simbolicamente como Jesus Cristo, o mínimo esperado de uma liderança religiosa coerente seria uma reação clara. Não por política, mas por fé. Não por ideologia, mas por respeito à própria Igreja.

Trump criticou o papa Leão 14
Donald Trump e Papa Leão XIV. Foto: Reprodução

Mas não houve reação.

E isso diz muito.

Porque, quando convém, Frei Gilson entra em campo. Fez lives com forte carga política às vésperas das eleições. Participou de eventos com figuras públicas alinhadas à oposição ao governo federal, como a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra. Chegou a lotar estádios, misturando fé e mobilização política de forma explícita. Não hesita em ocupar espaços públicos e privados para influenciar — sempre em uma direção.

Também não é irrelevante que essa atuação venha acompanhada de um projeto de poder material: a construção de um megatemplo, com terreno milionário, em contraste gritante com a simplicidade pregada pelo Evangelho.

Enquanto isso, multidões se reúnem em eventos organizados por ele — inclusive nas lojas Havan, do colega bolsonarista Luciano Hang, em cidades como Brusque, Indaial, Vilhena e Ji-Paraná — para acompanhar o Santo Rosário da madrugada e outras transmissões religiosas que reforçam sua liderança espiritual.

 

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Nada disso é, por si só, ilegítimo.

Mas tudo isso torna o silêncio atual ainda mais eloquente.

Porque quando a fé é usada como instrumento de mobilização seletiva, o que se revela não é espiritualidade — é estratégia. E quando uma liderança religiosa escolhe quando falar e quando se calar, especialmente diante de ataques diretos à própria Igreja, o silêncio deixa de ser omissão.

Passa a ser posicionamento.

E, neste caso, um posicionamento que expõe uma contradição difícil de ignorar: muito barulho quando convém à ideologia, nenhum som quando a coerência cristã exigiria voz.

Kiko Nogueira
Diretor do Diário do Centro do Mundo. Jornalista e músico. Foi fundador e diretor de redação da Revista Alfa; editor da Veja São Paulo; diretor de redação da Viagem e Turismo e do Guia Quatro Rodas.