
O silêncio de Frei Gilson diante dos ataques de Donald Trump ao Papa Leão XIV não é um detalhe — é uma escolha.
E uma escolha reveladora.
Seus defensores recorrem ao argumento já gasto: o frei “não fala de política”. A realidade desmente essa tese com facilidade. Frei Gilson fala — e bastante — quando o alvo são os direitos das mulheres, quando o tema é o combate ao chamado “comunismo” ou quando se trata de ecoar pautas típicas da extrema direita.
O silêncio, portanto, não é neutralidade. É conveniência.
Ao longo dos últimos anos, Frei Gilson construiu uma impressionante influência no campo religioso, dominando como poucos o uso das redes sociais para mobilizar fiéis. Trata-se de um feito notável do ponto de vista comunicacional. O problema não está na ferramenta, mas no conteúdo: essa influência tem sido usada para impulsionar uma visão ideológica que pouco dialoga com a tradição cristã centrada em Jesus de Nazaré — aquele que se colocou ao lado dos pobres, dos marginalizados e dos perseguidos, e não dos poderosos de ocasião.
Quando Donald Trump ataca o papa — líder máximo da Igreja que o frei diz representar — e chega ao ponto de se expor em encenações que beiram o delírio, como posar simbolicamente como Jesus Cristo, o mínimo esperado de uma liderança religiosa coerente seria uma reação clara. Não por política, mas por fé. Não por ideologia, mas por respeito à própria Igreja.

Mas não houve reação.
E isso diz muito.
Porque, quando convém, Frei Gilson entra em campo. Fez lives com forte carga política às vésperas das eleições. Participou de eventos com figuras públicas alinhadas à oposição ao governo federal, como a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra. Chegou a lotar estádios, misturando fé e mobilização política de forma explícita. Não hesita em ocupar espaços públicos e privados para influenciar — sempre em uma direção.
Também não é irrelevante que essa atuação venha acompanhada de um projeto de poder material: a construção de um megatemplo, com terreno milionário, em contraste gritante com a simplicidade pregada pelo Evangelho.
Enquanto isso, multidões se reúnem em eventos organizados por ele — inclusive nas lojas Havan, do colega bolsonarista Luciano Hang, em cidades como Brusque, Indaial, Vilhena e Ji-Paraná — para acompanhar o Santo Rosário da madrugada e outras transmissões religiosas que reforçam sua liderança espiritual.
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Nada disso é, por si só, ilegítimo.
Mas tudo isso torna o silêncio atual ainda mais eloquente.
Porque quando a fé é usada como instrumento de mobilização seletiva, o que se revela não é espiritualidade — é estratégia. E quando uma liderança religiosa escolhe quando falar e quando se calar, especialmente diante de ataques diretos à própria Igreja, o silêncio deixa de ser omissão.
Passa a ser posicionamento.
E, neste caso, um posicionamento que expõe uma contradição difícil de ignorar: muito barulho quando convém à ideologia, nenhum som quando a coerência cristã exigiria voz.