O terrorista de Toulouse

Carlos I

 

Num livro que estou lendo sobre Carlos I, o rei inglês que foi decapitado no século 17 depois de perder uma guerra civil contra o Parlamento, há um trecho que destaquei.

Havia, no tempo de Carlos, um tribunal chamado Star Chamber, Câmara Estrelada numa tradução livre, que na prática silenciava a insatisfação contra as coisas do reino. Os juízes eram, todos eles, indicados pelo rei. Se alguém dissesse alguma coisa negativa na visão do governo – uma queixa contra uma imposto, por exemplo – o caso era submetido à Star Chamber.

Na prática, o povo era instado a se calar. A câmara funcionava, além disso, como uma fonte de receita para o rei: as multas aos que questionavam o rei podiam ser pesadas. “Quanto mais você impede as pessoas de  manifestar seu descontentamento, mais perigosa vai ficando a situação”, escreveu o autor do livro. Os ingleses acharam a resposta ao superpoder do rei com uma inovação: um júri de doze diferentes pessoas, extraídas de diferentes parcelas da sociedade.

Isso me trouxe ao terrível episódio de Toulouse, na França, onde um fanático islâmico de 24 anos matou sete pessoas, entre as quais três crianças de uma escola israelita.

O que o levou a cometer uma atrocidade dessa natureza, em que foram horrivelmente sacrificadas vítimas inocentes?  Responder a isso demandaria um espaço infinito e, ainda assim, insuficiente. Mas em alguma medida a falta de espaço para expressar desagrado contribui para exacerbar os conflitos no chamado choque de civilizações.

Num telefonema para a emissora francesa France 24 em que reivindicou os crimes, o terrorista de Toulouse disse que fez o que fez em protesto contra a presença da França nas guerras movidas pelos Estados Unidos. Os tiros na escola foram, segundo ele, uma resposta às mortes de crianças na Palestina. A jornalista com quem o assassino conversou disse que ele estava calmo e se expremia com clareza e convicção.

Por que o protesto não se deu no campo das palavras?

É, evidentemente, difícil penetrar na mente de um terrorista. Mas é impossível deixar de reconhecer que não existe hoje muito espaço para que muçulmanos que vivem no ocidente expressem seu descontentamento no estrito campo das idéias. É fácil o protesto verbal ou escrito ser catalogado como um incitamento ao terrorismo.

A liberdade de expressão, neste campo, foi suprimida no mundo ocidental pós-atentados de 2001, ao mesmo tempo em que a islamofobia se espalhava: fundamentalismo de um lado, fundamentalismo de outro. Há poucos dias, um jovem muçulmano teve que dar explicações na justiça, na Inglaterra, depois de escrever no Facebook que a morte de seis soldados britânicos no Afeganistão era chorada, mas a de civis afegãos não.

Silenciar pontos de vida que não correspondam aos oficiais é perigoso, como mostrou a história com Carlos I. Na questão do islamismo, isso ajuda a produzir, no coração mesmo do Ocidente, terroristas como o de Toulouse –  jovens muçulmanos que se fanatizam em seu ódio multiplicado pelo silêncio e, na busca de vingança, não hesitam sequer diante de pequenos inocentes como as três crianças israelistas.