O Uruguai nos últimos dias de Mujica

Montevidéu
Montevidéu

 

Se você quer fazer uma viagem, para onde mais seria a não ser o Uruguai? Foi pensando assim que embarquei para Montevidéu. E por que o Uruguai? Porque o país é a bola da vez. Se alguma coisa está acontecendo no continente, é lá.

José Mujica, o Pepe, o “presidente mais pobre do mundo”, legalizou a maconha, o aborto e o casamento homossexual, mandou Obama oficializar o espanhol nas escolas dos EUA, condenou o consumo excessivo, criticou o militarismo, enfim, fez tudo aquilo que a sociedade brasileira não aceita e combate. “Reformas inovadoras que não se limitam apenas a melhorar um país, mas que, se imitadas, poderiam beneficiar o mundo”,  segundo a revista inglesa The Economist.

Mujica está chegando ao fim do seu mandato e no Uruguai não há reeleição. Um novo presidente será eleito dia 27 de outubro e é um momento especial: será que haverá continuidade dos governos de tendência socialista dos últimos dez anos

Se você espera chegar em Montevideo e encontrar hippies com cara de tupamaro, fumando baseados na rua, está completamente enganado. O uruguaio é discretíssimo. Em geral elegante, educado, contido. Qualquer um poderá discutir temas históricos e políticos sem exaltar-se. E, na verdade, não estão dando muito importância a decisões polêmicas como a legalização da maconha, encaradas com maturidade. “São medidas adequadas”, diz o professor de história Jose Benitez Minero, tomando uma legítima Patricia, a boa cerveja local.

Pergunto onde estão os maconheiros, as gangues ensandecidas da cannabis. Em que bairro, em que rua, em que lugares. “Somos um povo discreto”, me disse o professor. “Os que gostam da maconha, fumam dentro de casa”. Fumar maconha lá é um detalhe de pouco significado, uma questão privada. E nos dez dias em que passei em Montevidéu não vi ninguém fumar ou falar da erva.

O mais importante é que nesses dez anos reduzimos a miséria do país, há cada vez menos pobres e a classe média está crescendo”, contou Benitez, declarando seu voto à Frente Ampla, a coalização de esquerda cujo candidato é Tabaré Vázques, que antecedeu Mujica na presidência.

Mais tarde, eu jantaria no El Fogon, restaurante tradicional do centro da capital Montevideo, um favorito dos locais. O garçom me conta que Mujica “e outras pessoas importantes” volta e meia almoçam lá, mas não seu provável sucessor.

Vásquez é um socialista mais moderado, ainda que tenha cometido ousadias: em seu primeiro mandato, foi aprovada, por exemplo, a lei que permite a adoção de crianças por casais homossexuais. Médico, boa pinta, sorridente, apaixonado por futebol, Vásquez promete diminuir a carga tributárias e se concentrar em problemas relacionados à saúde e educação.

 

De saideira
Saideira

 

“O grande mérito [dos dez anos da Frente Ampla] foi colocar os temas mais complicados na mesa de discussão, dando projeção às políticas sociais e uma sensação de modernidade realmente progressista”, disse ele em entrevista para a TV argentina.

Quase a metade dos 4 milhões de uruguaios vivem em Montevidéu, uma capital com ares europeus e uma digna decadência. É uma população de coroas — há poucos jovens pelas ruas, até mesmo nas baladas noturnas. Uma delas, o Fun Fun, bar com mais de cem anos, é onde se reúnem intelectuais, progressistas e gente do governo para ver apresentações de candombe, a música típica, e shows de tango, gênero criado em terras uruguaias, pelo menos segundo eles mesmos. Às vésperas da eleição, estão todos tranquilos: sabem que haverá continuidade e estão satisfeitos “por enquanto”.

Vásquez começou sua campanha com folga nas pesquisas, mas, recentemente, viu seus números em queda. Há reclamações sobre a repetição dos mesmos nomes de sempre na presidência e, também, sobre a idade. “Mujica é um bom homem, um exemplo para o mundo. Tabaré Vázques também é. Mas são velhos, têm mais de 70 anos. Gostaria de ter um presidente mais jovem”, afirma Jorge Antero, produtor e comerciante de couro, referindo-se ao principal candidato conservador, Luis Alberto Lacalle Pou, do Partido Nacional, que  tem 41 anos e é uma espécie de Collor mais ponderado e ajustado. “Ele pode até ser bem votado, mas Vázques vai ganhar no primeiro turno”.

Ainda que existam extremos, não há discussões pela imprensa, calúnias, estratégias sujas, conspirações às vésperas das eleições. A “Suiça das Américas” é um pequeno reduto sul-americano do bom senso. Um lugar para se ir quando chega a hora de renovar suas esperanças no ser humano. O que parece ser cada vez mais necessário para nós, brasileiros.

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